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IDEIAS | Uma carta para Leda Rios

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Crédito: Freepik

Quando a conheci, nos meados dos anos 70, era uma septuagenária. Sentada em uma poltrona de sua casa, na rua Nascimento Silva, em Ipanema, Leda Rios me parecia a mais genuína das griôs, que encantava a todos com as suas histórias e com as suas sempre inteligentes colocações.

 À época eu ainda perambulava pelos meios acadêmicos, sem saber que, quase trinta anos se passariam para que eu me tornasse um “jovem escritor”, aos 58 anos de idade. A minha trajetória, oposta à dela, iniciada aos dezessete anos e interrompida precocemente, aos 29, começaria muito tarde. Fico pensando que, se houvesse aprofundado os contatos que tivera, quando jovem, com Pedro Nava (memorialista mineiro que participou da geração modernista de Belo Horizonte), com Mario Lago (compositor, ator, poeta, duramente perseguido pela ditadura que se instalara no País) e com Pedro Bloch (médico e grande dramaturgo brasileiro), talvez essas influências, tivessem antecipado a minha entrada no meio literário.

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Tampouco com ela, que tivera uma curta e reconhecida vida literária, tive oportunidades para que o seu passado fosse levantado em nossas conversas. Hoje, imagino o quanto poderia ter aproveitado com aquelas nossas reuniões. Afinal, além de excelente cronista e poeta, Leda tinha convivido com Manuel Bandeira e outros tantos da geração modernista.

Agora, ao saber que uma de suas netas desenvolve um projeto de pesquisa na França, com o objetivo de resgatar a sua memória, resolvo escrever-lhe uma carta que gostaria de ter escrito quando ela ainda estava entre nós.

Cara Leda Rios

Desculpe-me se largo de mão as formalidades e a chamo pelo nome, deixando de acrescentar senhora ou dona, referências ultrapassadas pela modernidade, que utilizo ao me dirigir a alguém que já passou da casa dos 50. Faço aqui a exceção porque penso que, onde você se encontra, esses protocolos já não fazem nenhuma diferença.

Muitos anos depois de você ter nos deixado, eu passei a escrever romances e crônicas, e essa será a questão nesse momento. No entanto, para contextualizar o tema, preciso antes lhe colocar a par dos progressos que tivemos por aqui. Pois bem, depois da invenção do computador, criaram uma tal de internet. Com ela, vieram as novas ferramentas ou rede sociais, chamadas por aqui de blogs, facebooks, twitters, Instagram etc. Nunca tantos puderam se manifestar e trocar tantas e diversificadas informações entre si como o fazem agora. Houve também uma verdadeira socialização da informação através da disponibilização de livros, jornais e periódicos on-line.

Apesar de todas essas aparentes vantagens, trazidas pela rede que nos conecta, sabemos que ainda há muitos pontos que merecem uma discussão mais profunda. Para mim, coexistem muitos mundos distintos na internet, mas o aspecto que quero aqui ressaltar relaciona-se com a malha de comunicação que vem se estabelecendo entre as pessoas, principalmente através do twitter. Sabemos que tem ajudado os maus caracteres a espalharem criminosas e falsas notícias

Mas existe ainda um outro problema, surgido no universo twitterista; a invenção do microconto e seu subgênero literário, a Twitteratura. Fico imaginando o twitter sendo apresentado a Proust, o qual, como sabemos, inaugurou um tempo narrativo em que a pressa não tinha vez. Penso, também, no que sugeriu o teórico da cultura Umberto Eco, ao afirmar que o texto uma máquina preguiçosa, que pede ao leitor para fazer parte do seu trabalho. Afinal, essas novas redes de relacionamento, com suas exigências restritivas, acabaram interferindo no ritmo do texto, que teve que se acelerar para acompanhar as normas impostas pelo sistema.

Falta-me ar quando penso que qualquer coisa que se escreva no twitter deve estar contida em 280 caracteres. Essa imposta mudança de ritmo nos leva a um tempo acelerado dos fatos, eliminando os tempos de encantamento e de ilusão, indispensáveis ao mundo ficcional. Poderia uma sentença (prefiro assim caracterizar) com 280 caracteres nos levar a passar a fronteira do real? Poderíamos, com esse número de caracteres, prover uma espessura expressional decente que contivesse o relacionamento do conjunto de signos com as ideias e com o estilo que um texto requer? Onde estariam os artifícios de expressão que os textos deveriam representar? Nesses 280 caracteres? Difícil imaginar.

Pois bem, Leda, gostaria muito de ouvir a sua opinião sobre os rumos da literatura na contemporaneidade. E, se encontrar por aí o Barthes, o Eco, o Saussure e o Jacobson (citados aqui pela importância de suas obras na semiótica), pergunte-lhes, também, o que pensam dos futuros autores dos microcontos twittisco. Só lamento não poder saber a sua resposta e a dos demais escritores; afinal, o correio celestial não entrega cartas aqui na terra.

*Escritor
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