Crédito: Valter Campanato/ABr

ROGÉRIO FARIA TAVARES*

Isidro Linhares acordou animado, como sempre. Para muita gente, era incrível como, aos oitenta anos, o velho preservava um humor invejável, uma impressionante disposição para a vida. Depois de abrir as cortinas, escancarou as janelas, para que o sol entrasse sem cerimônia e arejasse seu quarto. Depois de inspirar o ar com a determinação de um atleta olímpico, expirou sonoramente, como se seguisse as ordens de um rigoroso chefe militar, exercício que executou exatas dez vezes.

Cantarolando qualquer hino, dirigiu-se ao banheiro para lavar o rosto e conferir a aparência: ‘Continua bonitão’, opinou, com o sorriso a caminho do deboche, depois de examinar-se por diferentes ângulos, agora já pronto para mais um dia de labuta. Sim, mesmo na sua idade, Isidro Linhares não parara de trabalhar, mantendo, disciplinado, sua modesta farmácia no centro da cidade. ‘Não entendo por que essa gente toda precisa de antidepressivo. Eu nem sei o que é isso. Energia é o que não me falta’, gostava de gabar-se, nas reuniões quinzenais com os colegas de longa data.

Dona Silvina acabara de chegar, irritantemente pontual. Era ela que, há mais de duas décadas, se encarregava, todos os dias, do pão quente e do jornal. Isidro assinava o mesmo periódico há cinquenta anos. O ritual da leitura começava pelas matérias policiais: ‘O que é mais fascinante que um crime?’, costumava perguntar para a empregada assustada, que arregalava os olhos ao ouvir a indagação provocadora. ‘Para de falar assim, seu Isidro’, pedia a mulher, fazendo o sinal da cruz. ‘Crime é coisa do diabo’, emendava, a voz aflita.

Isidro seguia no mesmo tom, maravilhando-se com o requinte e a sofisticação demonstrados por certos marginais para consumar os seus propósitos. ‘Esse sujeito caprichou, Dona Silvina. Veja só o que ele fez’, e estava dada a senha para que narrasse, com os detalhes mais sórdidos, os atos atrozes cometidos por fulano, sicrano ou beltrano. Entre as três xícaras do café bem preto que gostava de tomar, sem açúcar, Isidro dava conta de relatar, minuciosamente, pelo menos uma ou duas das tantas histórias terríveis informadas pela imprensa. E o fazia caprichando na entonação, nas pausas, no clima de suspense, e, sobretudo, na hora de narrar o clímax, como se a trama viesse assinada por reputado ficcionista.

Na farmácia entre as nove da manhã e as cinco da tarde, com intervalo para almoço em casa (a comida de Dona Silvina era fenomenal), de avental branco e óculos na ponta do nariz, Isidro Linhares aproveitava o tempo livre e sem clientes para fazer as palavras cruzadas e os ‘sudokus’ do caderno de cultura. Passava um olho incrédulo pelo horóscopo e reparava, sem pressa, nas colunas sociais, procurando identificar, sempre sem êxito, algum conhecido ou o primo de um amigo.

A leitura só terminava mesmo quase no fim do expediente, quando se preparava para fechar as portas. Era aí que de novo inspirava e expirava dez vezes, ansioso para o que chamava de ‘fim de tarde’, um divertimento que lhe proporcionava intenso prazer e que, talvez por isso, não fosse nada barato.

Depois de recitar para um segurança na porta de um cinema abandonado a ‘palavra secreta’ que recebia em seu celular, cerca de uma hora antes, Isidro Linhares percorria um longo e escuro corredor, ao fim do qual encontrava o auditório. Escolhia o assento que lhe proporcionava a melhor visibilidade. Não queria perder qualquer lance das sessões de tortura ‘realistas’ exibidas ao vivo e a cores para plateia seleta e discretíssima, pronta a deliciar-se até o limite com a dor alheia.

*Jornalista e presidente da Academia Mineira de Letras