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CARLOS PERKTOLD*

Conheci o bairro Belvedere por volta de 1968 quando tive dificuldade de localizá-lo no momento que me explicaram onde ficava. Era longe demais. O Ponteio era longe, imagine um bairro mais adiante. Ele era todo de terras devolutas, que o bravo advogado Darcy Bessone batalhou e registrou em nome de sua empresa e fez o loteamento.

Bessone teve dificuldades de vender os terrenos por causa da distância entre o novo bairro e o Centro e, de tão longe, havia belo-horizontinos que tinham medo do lugar. Julgavam-no ermo. Não havia nenhuma casa ou prédio, apenas as ruas abertas e asfaltadas e os corretores aguardando algum corajoso que concordassem em investir ou morar tão longe de tudo. Minha mãe acha que deveria trazer uma marmita para comer no caminho quando viesse me visitar.

Para animar as compras, Darcy presenteou alguns políticos amigos com um terreno com o compromisso de construírem uma casa. Uns quatro ou cinco cumpriram o prometido. Mas o primeiro morador realmente corajoso foi Rodrigo Fonseca Dantas com sua Júnia, guerreiros que concordaram em ficar aqui durante anos sem vizinhos, sem lojas para comprar o mínimo e sem ônibus. Construíram duas casas em épocas diferentes e, depois de tantos anos, mudaram para apartamento em outro bairro.

Foi no Belvedere que descobri que começamos a envelhecer quando as pessoas que conhecemos em vida começam a virar nome de ruas e avenidas: Celso Porfírio Machado, Pedro Aleixo, Adauto Lúcio Cardoso, Virgílio Uchoa, José Maria Alkimim, Djalma Andrade, Zuzu Angel, Paulo Camilo Pena e tantos outros.

Em 1973 criei coragem e comprei um dos terrenos cujo dono era um médico. Sua mulher fazia pressão para ser vendido, com medo de que o marido fizesse uma casa e ele cismasse em vir morar no bairro, pavor dela. Vi também sua principal avenida ser aberta para termos acesso à estrada federal. Enquanto isso não ocorria, para sair do bairro, dirigia-se o carro por entre arbustos perto de onde hoje há um posto de gasolina. Vi dezenas e dezenas de casas serem construídas com projetos lindos e, em época que me esqueci, vieram os prédios.

O primeiro foi mau negócio para os construtores e seus compradores. A construtora devolveu os valores pagos por que a Associação do Bairro entrou na Justiça contra a construção de prédio alto demais. Os moradores ganharam temporariamente. Algum tempo depois houve um prefeito que, no último dia de seu mandato, autorizou a construção de prédios imensos e eles são tantos que até o clima do bairro mudou.

Quem veio morar aqui nos anos 1980, viu o quanto o inverno era rigoroso. As hortênsias de qualquer jardim eram enormes, lindas e agradeciam aquele clima gelado de outono europeu. Hoje, quando nascem, são do tamanho de uma margarida, desapontadas com o novo clima, que piorou na cidade inteira.

O vento que soprava da Serra do Curral acabou, cercado pelos prédios. Ele percorria o bairro inteiro e descia pela avenida Raja Gabaglia que, também cercado pelas construções, resultou no aquecimento do Centro da cidade e da região da Savassi. Confirmem com qualquer meteorologista.

Hoje o que me encanta no bairro é ver a quantidade de homens, mulheres e crianças que ficam no início da avenida José Maria Alkimim vendo o pôr do sol. Numa tarde clara, vê-se quase 60 km de distância e ele vai descendo va-ga-ro-sa-men-te com suas cores de diferentes matizes, com predominância de alaranjado. Dizem os mais velhos que essa cor é sinal de mais frio pela frente.

O frenesi dos espectadores é contagiante. Fotografam diversas vezes a “descida” do astro-rei, e pela sua humilde grandiosidade, tem-se a impressão de que podemos tocar-lhe, daí a mania dos mesmos espectadores fingirem que fazem um carinho nele, colocando a mão em uma altura que parece tocá-lo e deixam ser fotografados.

A tarde cai trazendo o deslumbramento do público, que é de alguém que parece não ter certeza se o verá novamente amanhã no mesmo local e na mesma hora. E ele, lá de longe, dá pouco valor ao seu próprio esplendor e um sorriso enorme, agradecendo os aplausos da audiência do Belvedere, certo de que sua bela performance e seu público crescerão no dia seguinte.

Ali, namorados cruzam as mãos e olham no infinito, certos de que seus amores serão tão longevos quanto a distância que há entre eles e aquelas cores formando o pôr do sol do Belvedere.

*Psicanalista