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Foto: Hermínio Oliveira/Abr

ROGÉRIO FARIA TAVARES*

Era uma quarta-feira ensolarada, de céu azul, quando Ricardo resolveu inventar mais uma das suas: ‘Anote aí: quero ser cremado’, disse para a mulher, convicto, em tom solene. Voltavam do velório de um conhecido. ‘Ele deve estar impressionado’, pensou Fabiana, na esperança de que mudassem logo de assunto. O marido insistiu: ‘Não admitirei meu corpo apodrecendo debaixo da terra, lentamente, comida para os vermes. Prefiro que ele seja consumido pelo fogo e que vire pó, bem rápido’. Ela o encarou fixamente, atônita, sem saber o que dizer. ‘E quero minhas cinzas no mar de Fernando de Noronha. Prefiro virar alimento de golfinho’. A esposa franziu o cenho, perplexa, ainda sem forças para se manifestar.

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‘Vou registrar tudo por escrito. Por segurança, avisarei algumas pessoas. Umas nove ou dez. Assim, não faltará quem garanta o cumprimento desse meu último pedido. Não é prudente?’ Incomodada, Fabiana suspirou, tomando fôlego para debater mais uma das ideias amalucadas do marido.

‘Você acha mesmo importante o que vai acontecer depois da sua morte? Não seja tolo!’ Ignorando a reação da mulher, ele entrou na internet e começou a navegar pelas praias de Fernando de Noronha. Talvez determinasse a de sua predileção. Fizera viagens inesquecíveis àquele litoral, o lugar mais bonito que conhecera em toda a sua vida. Fabiana irritou-se ainda mais com o gesto de Ricardo. Paisagista, passou o resto da manhã com as mãos sujas de terra, cuidando dos jardins da casa, bem longe dele.

Obsessivo, Ricardo escreveu a tal carta umas tantas vezes, enviando-as aos amigos mais confiáveis. Assim que receberam a correspondência, todos telefonaram, preocupados. ‘Você está bem? Precisa de alguma ajuda? Por favor, me diga. Temos total liberdade um com o outro’, disse Nestor, companheiro de juventude. Aparício, vizinho desde a infância, ligou antes para Fabiana, apreensivo. A esposa não economizou as palavras: ‘É essa mania que ele tem de querer controlar tudo, até o que vai acontecer depois que ele morrer. O que eu posso fazer? Ele é assim. Eu já me conformei’. Com Aurélio, Ricardo precisou do máximo de serenidade. O amigo ficara bastante tenso com o teor do texto: ‘Eu só quis tomar uma medida preventiva, meu chapa. Agora, você já sabe: chegou a minha hora, é fogo, pó e água do mar. Mas fique tranquilo, eu estou ótimo. O médico disse que meus exames estão excelentes. A turma ainda vai demorar para se livrar de mim’. De fato, depois disso, muito tempo se passou. Ricardo chegou até a separar-se de Fabiana, voltando a namorar muito, como na mocidade.

Assim que o relacionamento com Rafaela ficou mais sério, ele resolveu apresentar a ela a sua ilha favorita, no Carnaval dos seus sonhos. Na volta, porém, não tiveram sorte. Foi só decolar de Fernando de Noronha, no primeiro dia da quaresma, que o avião em que estavam explodiu, incendiando-se completamente e carbonizando os corpos de todos os passageiros. Era uma quarta-feira ensolarada, de céu azul.

  • Jornalista. Da Academia Mineira de Letras
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