ROGÉRIO FARIA TAVARES*

Lançada na terça-feira, dia 22, no Edifício Darcy Ribeiro, anexo à sede do BDMG, “Literatura Mineira: Trezentos anos” é obra que permanecerá ao longo do tempo, tanto como fonte de pesquisa quanto como documento histórico, capaz de informar as gerações futuras sobre como a nossa refletia a respeito do assunto. Em 446 páginas, o volume reúne trinta ensaios de alto padrão sobre o fenômeno literário em Minas, de 1720 até a atualidade.

Com orelha redigida por Antônio Carlos Secchin, da Academia Brasileira de Letras, o livro foi organizado por Jacyntho Lins Brandão, professor emérito da UFMG e membro da Academia Mineira de Letras. Concebido durante a minha gestão como presidente do BDMG Cultural (e finalizado pela minha sucessora, a jornalista Gabriela Moulin, a quem sou muito grato), ganhou lindo projeto gráfico de Vitor Carvalho, designer de talento, que escolheu as cores da bandeira inconfidente de Minas Gerais para a sua capa.

A obra é dividida em duas seções. Na primeira parte, são tratados temas fundamentais para a compreensão de nossa história literária. Com o brilho de sempre, Ângelo Oswaldo de Araújo Santos disserta sobre a geração formada a partir do ‘Suplemento Literário’ fundado por Murilo Rubião durante o governo de Israel Pinheiro. Constância Lima Duarte e Rosário Pereira apresentam a imensa lista de escritoras que honram as nossas letras, entre as quais se destacam Bárbara Heliodora, Beatriz Brandão, Helena Morley, Maria Helena Cardoso e Lúcia Machado de Almeida.

Eduardo Assis Duarte comenta a chamada literatura ‘afrodescendente’, enfatizando as preciosas contribuições de autores como Adão Ventura, Edimilson de Almeida Pereira, Ricardo Aleixo, Anelito de Oliveira, Ana Maria Gonçalves e Cidinha da Silva. O excelente Fabrício Marques assina texto sobre os cronistas mineiros. O ótimo Emílio Maciel se dedica ao romance mineiro, focalizando Cyro dos Anjos, Guimarães Rosa e Lúcio Cardoso. Eneida Maria de Souza aborda o Modernismo, com a competência por todos reconhecida e admirada. Merecem atenção particular os textos de Ivete Walty sobre a denominada “Literatura Marginal”; de Maria Inês de Almeida sobre “Literatura Indígena” e de Lúcia Castelo Branco sobre “Literatura Erótica”.

Eles comprovam a vivacidade da Literatura na contemporaneidade. Ela não está mais confinada a certos lugares sociais. Pelo contrário. Acontece por todo lado, para muito além de certos núcleos humanos beneficiados pela origem, pela renda ou pela sorte.

Na segunda parte, há estudos específicos sobre o percurso literário de Conceição Evaristo, Lúcio Cardoso, Cláudio Manuel da Costa, Alphonsus de Guimaraens, Pedro Nava, Murilo Rubião, Adélia Prado, Bernardo Guimarães, Henriqueta Lisboa (a primeira mulher a eleger-se para a Academia Mineira de Letras, em 1963), Guimarães Rosa, Júlio Ribeiro, Carlos Drummond de Andrade, Carlos Herculano Lopes e Murilo Mendes.

A melhor notícia vem agora: com tiragem de mil exemplares, “Literatura Mineira: Trezentos anos” não se apresenta somente na versão impressa. Seu valioso conteúdo já está integralmente disponível, gratuitamente, no site do BDMG Cultural. Afinal, como dizia o mestre Antônio Cândido, a literatura é um direito de todos.

*Jornalista, doutor em literatura e presidente da Academia Mineira de Letras