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Uma indignação, uma pipa e um anjo

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Crédito: Pixabay

Antes da pandemia que assolava o seu país, Zé da pipa tinha plena consciência de suas afortunadas circunstâncias. Afinal, morava em uma cobertura, cuja área externa, além de permitir-lhe apreciar o azul que enfeitava o céu durante quase todo o ano, deixava-lhe vislumbrar, em plena Ipanema, uma pequena floresta, locatária da praça em frente ao seu prédio.

Às vezes, debruçado sobre o pequeno muro que cercava o local, dedicava-se a admirar os galhos das árvores daquela pequena floresta que, sob a ação de fortes ventos, se esmurravam entre si. Em algumas outras situações, admirava a vento, em forma de uma leve aragem, que embalava as suas verdejantes folhas e as levava dançar, em passo adágio, um sincronizado ballet.

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 “Isso aqui é um paraíso, um verdadeiro paraíso. Poderia daqui de cima até soltar uma pipa”, comentou ele, certa vez, com o amigo Nilton Porfirio. Lembrou-se, quando fez o comentário, das aventuras com as pipas que soltava. A sua alegria começava com a ida ao pé do rio local, onde selecionava o bambu, cujos pedaços, uma vez afinados, serviriam de arcabouço para aquilo que construía. Em seguida, a escolha das cores do papel de seda, a compra do carretel de linha e a elaboração da rabiola eram agregados aos seus momentos de felicidade. Momentos de felicidade estes que eram complementados quando colocava um bilhete em pedaço de papel preso à linha de sua pipa. Tinha a esperança de que, ao ser carregado pelo vento, aquele pedaço de papel ganhasse altura e chegasse aos céus. Esperava que algum anjo visse o que escrevera e atendesse às suas solicitações.

Mas agora o seu paraíso só poderia existir no presente como uma lembrança das coisas passadas. Aquele vento que, ao se deslocar pelos quatro cantos, ouvia as juras de amor trocadas pelos amantes, podia ouvir as confabulações e as conspirações que, imerecidamente, derrubavam governos democráticos; era também testemunha das ordens saídas da boca de um “certo” governante do seu continente, que insistia em contrariar todas as medidas exigidas para o combate ao flagelo que se abatera sobre o seu país. Ele não tinha a menor dúvida de que a referida pessoa seria lembrada como o maior criminoso em série da história moderna.

O espetáculo que o vento lhe oferecia deixara de existir. Se manifestava agora com rajadas que uivavam através das frestas da porta de sua cobertura e sussurravam aos seus ouvidos um triste e melancólico grito de suplício. O grito daqueles que perderam os seus familiares para o vírus.

O excesso de vida que existia dentro dele, à época de sua adolescência, o levava a relativizar qualquer conversa sobre a morte; morte essa que, eventualmente presenciada por ele, lhe causava apenas uma pequena impressão. Tinha, então, a certeza de que a fatura do universo, comunicando a sua subida, jamais lhe chegaria às mãos. Enfim, subliminarmente, julgava-se eterno. Mas tudo havia mudado. Agora, como adulto vivendo sob um desastre pandêmico, a morte deixara de se apresentar em doses homeopáticas. Ela viera ceifando milhares de vidas do seu país.

A sua tristeza com toda a situação era acompanhada pela sua indignação com a forma pela qual o governo central tratava o assunto. Certa vez, em conversa com um amigo francês, fez-lhe uma sombria pergunta Kierkegaadiana: “Meu caro, que tipo de essência esse que nos governa construiu até agora na sua execrável existência?” “Um irresponsável que não soube se construir. Mesmo que essa figura adotasse o grau zero da verbalização em seus discursos, ainda assim, a bizarra expressão de sua face o denunciaria. Diante das desumanas ações desse sociopata, eu sugiro que fechem as suas portas. A morte os espreita bem de perto. A emissão do passaporte para o futuro de sua nação jamais será expedida. Hoje pode se afirmar que esse seu país não passa de um conto sem trama, onde apenas se nota o murmúrio de alguns eleitores arrependidos.

Imagino o tamanho de sua contrariedade com tudo isso. Aconselho-o a sair desse continente. Mas, esteja onde estiver, continue a lutar por mudanças. Faça-o, entretanto, com muita cautela. Pelo que sei, a figura boçal, instalada no governo central, persegue os que lhe fazem oposição. Não deixe a sua indignação comandar os seus atos, porque ela o tirará do sério e o fará a tomar atitudes imprudentes. Se a distopia em que vive o seu país assaltar o seu espírito, para ajudá-lo a vencer os efeitos que porventura lhe causem, contextualizo aqui uma pequena frase de Santo Agostinho: ‘A esperança presente do tempo futuro’. Utilize-a como seu mantra”, disse-lhe o amigo.

 Após aquela conversa, providenciou a compra de uma pipa. Resolveu que a soltaria desde o seu terraço. Na linha que a prendia, colocaria em um pedaço de papel algo que escrevera:

Tu, negra cinza

Que concebida foste

Nas chamas ardentes

Da fotografia de minha alma

Aproveita a chegada de Zéfiro

Deus do vento oeste

E voa, voa para bem longe

Leva contigo o calcinado testemunho

Da minha indignação ali retratada

Algum tempo depois, ele também voaria para bem longe, procurando afastar-se da barbárie, qual o Angelus Novus, de Paul Klee.

*Escritor
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