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“Vade retro”, filho bastardo de Satanás

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Crédito: Freepik

 A cidade de Orã, na Argélia dos anos 1940, foi, no livro “A peste”, de Albert Camus, impiedosamente atacada pela peste bubônica. A disseminação e a falta de vacina impuseram à cidade um rígido controle à saída de seus moradores para impedir que a bactéria Yersina pestis, causadora da doença, contaminasse outras localidades.

Um dos personagens do livro, o jovem jornalista Raymond Rambert, surpreendido pela peste, aliou-se a contrabandistas e tentou, inúmeras vezes, fugir da cidade. Lá pelas tantas, quando finalmente consegue um arranjo que lhe daria sucesso na sua fuga, em um gesto magnânimo, ele desiste da ideia, apesar da sugestão que recebe de Jean Tarrou, um outro personagem do livro:“Se quiser ficar para compartilhar a desgraça dos homens, nunca mais terá tempo para a felicidade”.

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Pois bem, foi exatamente esta parte do livro que me veio à cabeça, quando entrei no trem que me levaria de Paris a Orleans, uma cidade situada no Val-de-Loire. Por um momento, um sentimento de culpa tomou conta de minha alma. A cidade contava à época com muita contaminação e as restrições à locomoção seriam implantadas nos dias que se seguiriam à minha partida. Deixar o meu bairro, o Quartier Latin, abandonar os amigos que, carinhosamente, me acolheram quando cheguei à cidade, há quase 14 anos, e que me fizeram ver o quão solidários são os parisienses, me causou, por um breve momento, um desconforto.

Breve momento, porque, logo percebi que a comparação que fizera não procedia. No livro de Camus, a epidemia da peste havia se restrito à cidade de Orã; no meu caso, fora de qualquer ficção, a epidemia se alastrava por toda a França. Não abandonava os amigos expostos ao vírus por uma situação mais confortável. Desejava, apenas, mudar temporariamente de ares e refletir melhor sobre um tema que discutirei a seguir. E depois, o convite feito por uma amiga, hospedada em um castelo cercado por belos jardins, onde o oculto e prolongado silencio do dia só é rompido pelos cantos pássaros, me seduzia.

Lá, poderia também dar longas caminhadas através de uma estrada de terra batida, às margens do rio Loire, que abrigava, em quase todo o seu trajeto, alguma ilhas, locadoras de pequenas e verdejantes florestas, salvas aqui das criminosas motosserras de um ser vil e servil ministro lambe-botas.

Tinha a esperança de que as caminhadas, longe de meu habitat, me ajudassem a equacionar alguns conflitos internos. Havia uma briga travada no meu íntimo entre dois contextos. O primeiro deles, relacionado ao meu pessimismo, ao qual se associavam tristeza e uma grande indignação. Tristeza com a morte de centenas de milhares de pessoas de um certo país. Indignação com o modus operandi do governo central do tal país, sem condições de sequer gerir um condomínio de um edifício de dois andares. Junto com aqueles que ainda insistem em apoiá-lo, acabam por demonstrar, sem nenhuma dúvida, uma certa “grandeza”, mas trata-se de uma grandeza satânica.

No outro contexto, em séria desvantagem, está o meu tímido otimismo, o qual, nas raras vezes em que saí vencedor, representa-se em minha face por um breve e esmaecido sorriso.

Agora vejamos o cenário destes contextos. A condição de estar atuando como cronista de jornal me impõe ficar a par de tudo que é veiculado nos mais diversos jornais. E aí está uma parte do problema para a corrente otimista. As notícias destes periódicos são uma preciosa fonte para saciar a sede de qualquer boca pessimista. E isso não seria tudo. Há ainda a leitura e releitura que sempre faço de alguns autores e filósofos do século XX, que abraçaram, frente aos desastres daquela época, uma abordagem pessimista. Entre esses autores, eu citaria Emil Cioran, filósofo romeno de nascimento e francês por adoção, que é autor de algumas das mais sombrias frases da história do pensamento. E não poderia, obviamente, também deixar de fazer referência ao livro “A Náusea”, de Jean Paul Sartre, livro esse que marca a mais pessimista fase do filosofo francês, na qual a morte de Deus leva o homem à descoberta do vazio de sua existência e do seu niilismo interior. Um existencialismo filosófico flertando com a perspectiva niilista.

Volto, neste momento, mais uma vez, à minha indignação com o tal desgoverno. Agora, para afirmar que o meu pessimismo fortalece-se, ainda mais, com o juízo de valor que faço do grande responsável pela tragédia que atingiu o citado país. Não há como deixar de imaginar a figura em questão gabando-se, em seu íntimo, de suas vilanias e de outras maldades que comete. Se a energia que há na minha indignação me inspira a criticar o tal desgoverno, por outro lado, ela me causa mal-estar e pode ser a fonte geradora do retesamento dos meus músculos e de sua nefasta consequência, uma lombalgia.

O resultado de tudo isso é que as tais caminhadas ainda não me auxiliaram a decidir pelo vencedor do interno combate. Buscarei um outro recurso, e darei ao otimismo uma vantagem. Em uma banheira deixarei que uma morna água me relaxe, banhe a minha alma, tornando-a bem preguiçosa. Aí, tendo como mantra a citação: “Se formos deixados por nossa própria conta, temos todos os motivos para sermos pessimistas. Mas, se acreditarmos em forças superiores ao homem, então, podemos ser otimistas”, de Jean d’Ormesson (o consagrado autor francês da felicidade), imaginarei um Brasil livre de suas atuais forças malignas.

 Pelo andar da carruagem, só mesmo uma força superior para a vitória do meu otimismo, vitória essa que só se completará quando o filho bastardo de Satanás, tosco tiranete de quinta categoria,voltar ao inferno, local de onde nunca deveria ter saído. E que não esqueça de levar consigo os seus seguidores e toda a sua entourage.

*Escritor com uma trajetória literária que inclui a autoria de oito romances, alguns deles publicados em Angola, no Brasil, na Croácia, na França e na Itália
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