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Rogério Faria Tavares*

Espio pela janela, cauteloso, evitando ser notado. Quem não pensa em esconder-se num momento como esse? A paisagem é atípica: em plena quinta-feira, são poucos os motoristas e os pedestres que se aventuram em circular pela cidade assustada.

Por um segundo, sinto saudade do trânsito congestionado. Meus ouvidos também estranham, já que não detectam o som esperado, tão familiar e natural quanto o café quente de todas as manhãs. Onde está a algazarra urbana permanente, soma de barulhos sortidos, companheira fiel há tanto tempo?

Há apenas, aqui e ali, ruídos esparsos, como se fosse domingo ou feriado. Ladino, traiçoeiro, o assombro do momento não poupa ninguém. Não respeita idade, etnia, sexo, religião. Nem classe social, o que não deixa de ser uma novidade, ainda mais num país como o nosso, famoso pelos castigos seletivos, desde sempre.

Depois de três dias sem aula, Carlos e Gabriela começam a dar os primeiros sinais de cansaço. Estão acostumados à boa rotina, que organiza a vida e equilibra as emoções. Nela, a livre circulação desempenha papel fundamental. O que fazer se agora não é possível mais ir à escola, à praça, ao cinema, às casas dos avós e dos amigos? Uma mudança repentina não é fácil.

O primogênito, de oito anos, está mais inquieto, como se nenhum lugar na casa pudesse acomodá-lo em paz. Os livrinhos, a tevê e o computador ajudam a passar o tempo, mas o ponto de saturação chega rápido. Sabrina propõe atividades coletivas, de que a família toda pode participar: jogos de tabuleiro, cartas, quebra-cabeças, adivinhações. E assim os pequenos vão levando…

Os adultos convivem um pouco melhor com a mobilidade reduzida, mas, mesmo com empenho e criatividade, não é tarefa simples preencher todas as horas, agora mais longas e parecidas. O consumo de notícias cresce, naturalmente.

O acesso ao jornalismo de qualidade é essencial para entender a evolução dos acontecimentos e para ordenar o pensamento a respeito, com base na informação séria, técnica, alinhada à ciência e à medicina, e não à superstição e aos preconceitos. Outra tábua de salvação é sempre a literatura, portal generoso para universos paralelos, improváveis, impossíveis.

A palavra de Afonso Arinos de Melo Franco me remete a um Brasil de outras épocas, que hoje vive somente na saudade. No belíssimo “A alma do tempo” – reunião de cinco volumes de suas memórias – viajo com o velho senador por todas as fases de sua vida, aprendendo com a sua erudição, a sua cultura, a sua elegância, a sua sofisticação, em tudo opostas ao padrão hoje vigente.

Sedento de ficção, recorro à ótima Adriana Lisboa, que me seduz com a sua “Sinfonia em branco”. Deixo-me cativar pelas histórias de Clarice, Maria Inês e Tomás, Afonso Olímpio e Otacília. Sem me dar conta, estou numa fazenda antiga, absorto em dramas que não são meus.

O que pode ser melhor que isso? De volta a Minas, peço socorro a Guimarães Rosa, sempre solícito. Embrenhando-me pelo sertão, acompanho Riobaldo e Diadorim em suas andanças. Perdido entre matas e rios, escapo da minha prisão domiciliar e volto a sentir o vento fresco no rosto, amenizando a travessia. De que modo chegarei à outra margem?

*Jornalista e presidente da Academia Mineira de Letras