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Rogério Faria Tavares*

Com a morte de Daniel Azulay, no dia 27 de março, no Rio de Janeiro, vítima da leucemia e do coronavírus, foi-se embora um dos artistas mais sensíveis, ternos e delicados da nossa época, tão brutalizada pela visibilidade concedida aos boçais, aos toscos e aos truculentos. Nascido na cidade maravilhosa, em 1947, Daniel chegou a formar-se em direito em 69, embora sua vocação fosse, desde sempre, o desenho.

Aos vinte e um anos já era cartunista profissional, estampando o seu traço caprichado nas páginas do “Correio da Manhã”. Em 75, ganhou o primeiro lugar num concurso internacional na Grécia, com uma caricatura contra o autoritarismo (só publicada no país dez anos depois, no livro “Aos trancos e barrancos – como o Brasil deu no que deu”, de Darcy Ribeiro). Também em 75, apresentou ao público uma de suas criações de maior sucesso: a “Turma do Lambe-Lambe”, uma galeria de personagens que foi parar na tevê e nos gibis.

Por uma década, Daniel comandou uma atração diária com esse nome, na TV Educativa e na Rede Bandeirantes, e, depois, no Canal Futura e na TV Rá Tim Bum. Afastado da telinha desde 2007, abriu uma oficina de desenhos de enorme sucesso na capital fluminense, chegando a manter cinco unidades do empreendimento. Nos últimos anos, também se dedicava a dar palestras por todo canto sobre arte, educação e ecologia.

Criança nos anos setenta, era seu telespectador fiel e entusiasmado, numa época em que não havia internet, celulares, videogame ou os viciantes joguinhos eletrônicos de que Carlos tanto gosta. Isso tudo era apenas especulação dos livros de ficção científica ou das histórias dos Jetsons, uma família do futuro inventada pelo estúdio Hanna Barbera. O fato é que eu chegava da escola apressado, na esperança de assistir a pelo menos alguns minutos de seu programa.

Daniel tinha um carisma impressionante e conseguia ensinar sua plateia a desenhar num clima de grande descontração e alegria. Os minutos voavam, embalados pela sua voz animada e pelas brincadeiras protagonizadas por Gilda, Chicória, Damiana, Pita ou o Professor Pirajá. Rabiscar no papel em branco não era só para os super dotados ou para os hiper talentosos. Era para todos.

Dono de traço seguro e de fascinante agilidade, Daniel Azulay também mostrava como fazer brinquedos em casa, praticamente sem custo, utilizando a sucata doméstica e materiais recicláveis, valorizando os elementos da vida comum e cotidiana. Praticamente do nada, gerava navios, aviões, naves espaciais. Suas mãos pareciam mágicas. Ao lado de Paula Saldanha, com o seu Globinho, talvez tenha sido um dos primeiros apresentadores a pautar o tema da sustentabilidade.

Seu poder de comunicação era real e honesto, despido dos artifícios e dos aparatos sofisticados e caros, tão disseminados nos anos seguintes por uma mídia cada vez mais rendida ao consumismo. Sua mensagem era simples e direta, de compreensão imediata: usar a criatividade e a imaginação para tornar a vida mais bela e mais divertida. O que pode ser melhor que isso?

Agora, em tempos de exílio forçado e da evidência de que o planeta não aguenta mais o que a humanidade tem feito com ele, será preciso, como nunca, fazer viver a lição de Daniel, desdobrando-a de todos os modos possíveis.

* Jornalista e presidente da Academia Mineira de Letras