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Rogério Faria Tavares*

Celebrada na data de aniversário de Carlos Drummond de Andrade, em 31 de outubro, o Dia Nacional da Poesia é ocasião para festejar o seu vigoroso poder de transformar a realidade, de renovar a esperança (mesmo em tempos terríveis, como os que enfrentamos) e de apontar caminhos para o reencontro da Humanidade consigo mesma.

Portal para novas percepções, a Poesia amplia horizontes, surpreende, intriga, espanta, fascina, e transporta os leitores para outras dimensões, reacendendo o apreço pela beleza, pela delicadeza, pela suavidade, e, também, a atenção para as perplexidades causadas pela vida.

Em “Poesia”, o mineiro de Itabira registrou: “Gastei uma hora pensando um verso/que a pena não quer escrever. / No entanto ele está cá dentro/ inquieto, vivo. / Ele está cá dentro/ e não quer sair. / Mas a poesia deste momento/ inunda minha vida inteira”. O mistério das palavras é o que seduz o autor, nesse trecho de “Consideração do poema”: “As palavras não nascem amarradas,/ elas saltam, se beijam, se dissolvem,/ no céu livre por vezes um desenho,/ são puras, largas, autênticas, indevassáveis.”

Revelada ao público pelo próprio Drummond, em crônica hoje pertencente ao acervo da Academia Mineira de Letras, Adélia Prado escreveu, no poema intitulado “A Poesia, a salvação e a vida II”: “Eu vivo sob um poder/que às vezes está no sonho,/no som de certas palavras agrupadas,/em coisas que dentro de mim/refulgem como ouro:/a baciinha de lata onde meu pai/fazia espuma com o pincel de barba./De tudo uma veste teço  e me cubro.” No célebre “O nascimento do Poema”, a mineira de Divinópolis filosofa: “Entender me sequestra de palavra e de coisa, /arremessa-me ao coração da poesia. / Por isso escrevo os poemas/ pra velar o que ameaça minha fraqueza mortal. / Recuso-me a acreditar que homens inventam as línguas, / É o Espírito quem me impele, /quer ser adorado”

Em “desencontrários”, o paranaense Paulo Leminski vai ao ponto: “Mandei a palavra rimar, / ela não me obedeceu. / Falou em mar, em céu, em rosa, /em grego, em silêncio, em prosa. / Parecia fora de si, / a sílaba silenciosa. / Mandei a frase sonhar, / e ela se foi num labirinto. / Fazer poesia, eu sinto, apenas isso. / Dar ordens a um exército, / para conquistar um império extinto.”

Em “Arte”, Antônio Carlos Secchin igualmente reflete sobre a natureza da Poesia e dos poemas: “Poemas são palavras e presságios, / pardais perdidos sem direito a ninho. / Poemas casam nuvens e favelas / e se escondem após no próprio umbigo. / Poemas são tilápias e besouros, / ar e água à beira de anzóis e riscos. / São begônias e petúnias, /isopor ou mármore nas colunas, / rosas decepadas pelas hélices / de voos amarrados contra o chão. / Resto do que foi orvalho, / poema é carta fora do baralho, / milharal virando cinza / pelo incêndio do espantalho.”

Milagre do engenho humano, a poesia é chance de redenção, oportunidade de olhar para o mundo de outro modo, de inventar e de sonhar com outros mundos. E estratégia criativa para resistir e para combater o horror com o belo, a ignorância com a sabedoria, a truculência com a gentileza. Vamos poetar?

*Jornalista. Doutor em Literatura. Presidente da Academia Mineira de Letras