Crédito: Acervo Secult-MG

Rogério Faria Tavares*

Se não era óbvio antes, agora parece que ficou: as artes são serviços essenciais. A quarentena veio para comprovar que ninguém consegue viver no gozo de plena saúde (pelo menos a psíquica) sem fruir do trabalho de escritores, cantores, instrumentistas, atores, fotógrafos…

Não conheço uma só alma que esteja passando esse período de confinamento sem consumir pelo menos um ou dois produtos da criação artística. Há os que prefiram as novelas, os filmes ou as séries. Outros escolhem ler ou escutar música.

Tenho amigos que fazem aula de dança de salão virtual. Também sou próximo a pessoas que organizam saraus poéticos pela rede. Tudo isso ajuda a passar o tempo, diverte, informa, educa. E consola. É antídoto contra a ansiedade, a depressão, a solidão… E alegra a alma.

Deixa a vida mais feliz, quando o mundo inteiro parece desmoronar. Como resistir ao entorno desolador sem recorrer ao campo fértil e redentor da Cultura?

O canal exclusivo da Academia Mineira de Letras no Youtube registra um crescimento constante de seguidores, desde o começo da pandemia. Hoje, eles já são mais de seiscentos. A leitura poética da obra da acadêmica Yeda Prates Bernis gerou imensa repercussão.

No forno, já estão mais dois recitais: um dedicado à acadêmica Henriqueta Lisboa, primeira mulher eleita para a AML, em 1963, e outro sobre a produção da acadêmica Maria José de Queiroz, dirigidos, respectivamente, pelos professores Wander Melo Miranda e Lyslei Nascimento. O público adora poesia. Talvez enxergue no verso uma chance de salvação, um portal de acesso a um mundo mais belo e mais luminoso, em que haja paz e esperança.

No caso das crianças, a evidência do poder das artes é ainda mais fácil de ser colhida: como seria possível passar tantos dias em casa – sem poder passear pelas praças ou pelos parques nem visitar os coleguinhas e as avós – se não houvessem Ana Maria Machado, Ruth Rocha, Ziraldo e Maurício de Souza? Sem preconceitos de qualquer espécie, registro, ainda, minha entusiasmada gratidão à ‘Peppa Pig’, à ‘Masha e o Urso’ e a ‘Ben & Holly’, que conquistaram imediatamente a atenção da minha pequena Gabriela, de três anos.

A propósito, um particular fascínio pela literatura infantil motivou-me a pesquisar o sedutor universo dos clubes de livros, que voltaram com toda força, depois da grande popularidade de que usufruíram, em décadas passadas. Há hoje, no mercado brasileiro, ótimos clubes de livros também para crianças.

São iniciativas louváveis, que fazem chegar às casas das famílias de todo o país, mensalmente, livros escolhidos a dedo, por especialistas de alta qualidade, já agrupados por faixa etária. Não resisti e aderi à proposta de um dos clubes, desde logo aguardando, com ansiedade, a chegada da primeira remessa.

Entusiasmado, também presenteei minha mãe, de oitenta e quatro anos, em rigorosa reclusão desde meados de março, com uma assinatura de outro clube de livros, esse, naturalmente, voltado para o consumo adulto.

Leitora voraz, ela receberá em seu apartamento, a cada trinta dias, um volume lindo, editado especialmente pela empresa, e também selecionado por um curador especial, geralmente um escritor ou crítico literário de reputação. Sugiro que o leitor faça as suas investigações. Valerá a pena…

*Jornalista e presidente da Academia Mineira de Letras