Crédito: Divulgação AML

Rogério Faria Tavares*

Composta por cerca de quatrocentos textos datilografados e corrigidos à caneta pelo autor, a coleção de originais de Carlos Drummond de Andrade do acervo da Academia Mineira de Letras (AML) foi doada em 2004, por Furnas Centrais Elétricas, então presidida pelo mineiro José Pedro Rodrigues de Oliveira, num gesto de reconhecimento da importância da instituição como guardiã da memória cultural do Estado. Escritas nos anos sessenta e setenta, as crônicas mostram o melhor do gênio de Itabira e desmentem quem quer que considere esse gênero como menor. Pelo contrário, é expressão literária de primeira linha, responsável por popularizar, entre os leitores brasileiros, nomes como Lima Barreto, João do Rio, Raquel de Queiroz, Rubem Braga, Oto Lara Resende e, nos dias que correm, os excelentes Ignácio de Loyola Brandão, Frei Betto, Humberto Werneck e Manoel Hygino dos Santos.

Refinado, irônico, divertido, Drummond lança o seu olhar atento e perspicaz sobre os mais variados dramas humanos. Nada escapa à sua pena: os desafios da vida urbana, o dia a dia no Rio de Janeiro, as lembranças de Minas, a saudade dos amigos que se vão, a palavra carinhosa aos que aniversariam. Leitura leve e agradável, é presente para a sensibilidade e a alma. E também para a consciência crítica, uma vez que o poeta jamais negou-se a tratar de temas supostamente espinhosos, como as agressões dos grandes grupos econômicos ao meio ambiente. Pelo contrário, foi um dos pioneiros no tratamento do assunto.

Em “Dona Flor e o rio das Velhas”, ele registra: “Eis quando aparece uma draga com fome de ouro, esse ouro que parecia esgotado há muito, mas quem disse que, dragando o rio, ele não virá trazer a alegria das sociedades anônimas? E a draga vai engolindo barrancos e baixadas verdes, onde antes se admirava a silhueta das garças. Vai aluindo, esboroando, ressecando o leito do rio e fazendo de suas margens um cenário desolado. De sorte que ver aquilo não é sentir os benefícios do ouro, é antes ver a morte que se instala.”

A perseguição empreendida pela ditadura militar à atividade literária também não passa em branco. Em crônica do começo de 1977, Drummond defende a liberdade de expressão e reverencia os colegas cujos livros foram censurados: “Se muitas criações circulam, outras são vedadas ao livre trânsito, ou recolhidas depois que pacificamente se exibiram em livrarias. Neste panorama inseguro, quem sai do silêncio para a impressão merece pelo menos simpatia e apoio: está expondo o melhor do seu espírito ao cutelo do censor e da polícia. Deixo aqui um agradecimento geral e sincero, pedindo licença para, na pessoa de quatro grandes – Antônio Callado, Darcy Ribeiro, Osman Lins e Rubem Fonseca – homenagear todos aqueles que, no país, mantiveram ativo o ímpeto criador da literatura nacional”.

Patrono da poesia brasileira, celebrada em dia nacional no 31 de outubro, data de seu nascimento, os apaixonados por Drummond sabem que ele foi, acima de tudo, um espírito livre, nada provinciano, nunca mesquinho, e sempre capaz de compreender o mundo, as coisas e a grande aventura da existência humana em suas camadas mais profundas. E essenciais.

*Jornalista. Doutor em Literatura. Presidente da Academia Mineira de Letras