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Rogério Faria Tavares*

Comadre Jacira está desolada. Por conta da quarentena, há três meses não confessa a Padre Duílio – como faz há quarenta anos, disciplinada e rigorosa – as terríveis faltas contra Deus e a Igreja que tem cometido em sua rotina de senhora pacata e sozinha, agora mais que nunca.

Se fosse só desolada… Está angustiada, quase no limite. Não tolera conviver com os pensamentos e as imagens torpes que lhe atormentam a mente e as carnes, chegando, às vezes, a desgovernar suas mãos, habitualmente contidas, obedientes.

A única forma de purgá-los, de bani-los de seu convívio, mesmo que temporariamente, é a que sempre usou, com sucesso garantido: a narração minuciosa dos pecados cometidos por sua imaginação ao velho senhor, hoje bastante idoso e praticamente surdo, como toda a gente comenta. Uma corrente de eletricidade parece percorrer a espinha de Jacira nos momentos mais excitantes dos casos que não tem vergonha de revelar ao pretenso ouvinte. E fica ereta.

Caprichando nos detalhes – os olhinhos brilhando, a boca úmida, a saliva abundando – fala como se as cenas houvessem sido, de fato, vividas, e não apenas sonhadas. Chega ao final levemente cansada, a respiração acelerada, o peito arfando. E espera, com prazer, a prescrição da penitência.

Nas vezes em que Padre Duílio se esquece das punições, a Comadre faz questão de relembrá-lo: ‘E o que terei que fazer para que o Pai Eterno aceite o meu arrependimento?’ Quando o seu interlocutor lhe parece suave, displicente ou negligente, Jacira se sente ofendida, até traída, como se suas infrações não importassem ou fossem tolas, inofensivas, insignificantes. ‘O senhor não entendeu o que lhe disse, Padre? Se quiser, repito tudo, tim-tim por tim-tim.’

E se Comadre Jacira rompesse o isolamento social e fosse até a Matriz, valentona, desafiando as autoridades? Atingiria o seu objetivo? Por recomendação médica, Padre Duílio está impedido de receber os fiéis. Seu médico precisou gritar no seu ouvido: ‘O senhor é do grupo de risco. Gru-po de ris-co. Não brinque com esse vírus, Padre Duílio, por favor.’ As missas foram suspensas.

Os templos estão fechados até que as regras de flexibilização permitam a sua reabertura. Josino, um seminarista bem jovem e muito à vontade com as tecnologias digitais, se dispõe a apresentar a Padre Duílio as maravilhas da internet e das redes sociais. ‘Se o senhor quiser, posso organizar as celebrações pelo zoom ou por Skype. O que acha da ideia?’

O velho homem chega a franzir o cenho, o raciocínio embaralhado. Depois, recupera a tranquilidade: ‘Pedirei a Padre Davi que reze com os paroquianos pelo computador, Josino. Eles vão gostar. E Padre Davi também, eu tenho certeza.’ O menino se levanta, pronto para sair do quarto. ‘Só tem uma caridade de que não posso abrir mão, Josino. Sob o risco de matar alguém. Matar mesmo – e falo sem exagero.’

Amparada por Josino, escondida pelo casaco e pelo capuz, Comadre Jacira não sai de casa sem a máscara e as luvas. Mantém a cabeça baixa, como se não pudesse ser vista.

Entra pela porta dos fundos da casa de Padre Duílio, no horário mais discreto, quando todos estão fazendo a siesta, encerrados em seus aposentos. O jovem seminarista abre a porta do quarto, onde o velho sacerdote já está posicionado, numa cadeira em frente à outra. ‘Sou todo ouvidos, Jacira. Todo ouvidos’.

* Jornalista e presidente da Academia Mineira de Letras