Crédito: Sérgio Mourão/Setes

Rogério Faria Tavares*

Escrevo, mais uma vez, sobre Cláudio Manuel da Costa, sobre quem falei no aniversário do Instituto dos Advogados de Minas Gerais (IAMG), no ano passado, e sobre quem acabei de escrever um breve ensaio, com ênfase na fortuna crítica colhida por sua obra, para livro a ser publicado pelo mesmo IAMG, a propósito dos trezentos anos de Minas Gerais.

De vida fascinante, o inconfidente era filho de pai português, que imigrou para o Brasil na esperança de enriquecer com o ouro, e mãe paulista, de boa condição social.

Mestre em artes no Rio de Janeiro, quando estudou com os jesuítas, Cláudio Manuel da Costa viajou em seguida para Coimbra, onde morou por cinco anos, até formar-se em Cânones. A experiência na Europa imprimiu marcas profundas em sua formação intelectual e em sua sensibilidade estética, o que se refletiu fortemente em sua produção literária.

De volta ao país, Cláudio Manuel da Costa estabeleceu-se em Vila Rica, logo se tornando um dos advogados mais prestigiados da região, com o que pôde enriquecer.

No final de sua vida, era dono de patrimônio respeitável. Homem do direito, mas também da política, ocupou vários cargos na administração pública, tendo sido vereador, juiz e secretário de Estado.

Vocacionado para a poesia, começou a escrever ainda em Portugal. Notabilizou-se como sonetista e, ainda, como autor de éclogas e epicélios, formas raríssimas hoje em dia.

Dono de uma das melhores bibliotecas de seu tempo, na região das minas, foi também tradutor e dramaturgo, havendo escrito “O Parnaso obsequioso”, que foi interpretado em 1768. Seu poema épico “Vila Rica” é visto como texto que já contém traços de inegável ‘nacionalismo’ ou, pelo menos, de inequívoca defesa das coisas brasileiras.

Os versos escritos na fase conclusiva de sua existência só vieram a lume mais recentemente, e foram reunidos em notável livro de autoria do professor Carlos Versiani dos Anjos, da Universidade de Ouro Preto, sob o título “O velho Cláudio – inéditos da maturidade de Cláudio Manuel da Costa” (Editora Liberdade, 195 páginas), com ‘orelha’ do acadêmico Ângelo Oswaldo de Araújo Santos.

Influenciado pelos movimentos literários da época, Cláudio Manuel da Costa assumiu claramente, em vários de seus textos, sua filiação ao Arcadismo, embora seja possível, em alguns momentos de sua obra, detectar traços do Barroco, e até de um certo ‘Pré-Romantismo’, como opinam alguns especialistas. Para melhor compreender o seu legado, a leitura do trabalho de certos estudiosos é fundamental.

Entre os que mais se dedicaram a interpretar a sua contribuição para a literatura brasileira, menciono Caio de Mello Franco (e seu importante “O inconfidente Cláudio Manuel da Costa”, de 1931); Domício Proença Filho, que organizou as obras completas dos inconfidentes, em precioso volume da Editora Nova Aguilar, de 1996; e a saudosa professora Melânia Silva de Aguiar, da UFMG, cuja tese de doutorado foi sobre Cláudio.

Para quem quer conhecer a trajetória biográfica desse fascinante personagem, vale a pena começar pelo excelente volume assinado, em 2010, por Laura de Mello e Souza para a coleção ‘Perfis brasileiros’, da Companhia das Letras, coordenada por Elio Gaspari e Lilia Schwarcz.

*Jornalista e presidente da Academia Mineira de Letras