ROGÉRIO FARIA TAVARES*

Em aula remota dada ontem aos alunos da disciplina “Minas – trezentos anos”, do curso de Ciências do Estado, da UFMG, a convite dos professores José Luiz Borges Horta e João Miguel, abordei nomes fundamentais para a compreensão dos três séculos de produção literária em Minas Gerais. O primeiro deles, naturalmente, foi o de Cláudio Manuel da Costa, considerado por grande parte da crítica como um dos principais poetas da língua portuguesa.

Dos tempos coloniais, também foi inevitável mencionar Gonzaga, tanto por sua obra lírica (como ignorar “Marília de Dirceu”?) quanto pelo seu legado satírico, de que as famosas “Cartas Chilenas” são expoentes. Basílio da Gama foi mencionado pelo “Uraguai”, que narra as expedições dos portugueses e dos espanhóis contra as missões jesuíticas do Rio Grande. Classificado pelo mestre Antônio Cândido como obra lírica (e não como epopeia), é tido, pelo mesmo estudioso, como composição em que se destacam a variedade, a fluidez, o colorido e o movimento, e em que o encanto do leitor é ininterrupto.

De tal geração, ainda citei o Frei Santa Rita Durão – autor de “Caramuru”, considerada a primeira obra narrativa escrita a ter como tema os índios – e Silva Alvarenga, autor do poema “Glaura”, avaliado como o primeiro da literatura brasileira a propor, também nas palavras de Cândido, ‘um modelo de poesia lírica em metro fácil e cantante, de sabor quase popular’.

Do romantismo, escolhi a figura de Bernardo Guimarães, autor de livros como “O ermitão do muquém”, “O seminarista”, “O garimpeiro”, “O índio Afonso”, “A filha do fazendeiro” e “Rosaura”, sem falar no mais popular de todos, graças à televisão: “A escrava Isaura”, em que conta a história da moça de pele clara e boa educação que sofre nas mãos de Leôncio, senhor perverso e cruel. Abolicionista, Guimarães integrou-se ao espírito de seu tempo e de sua geração, a de 1870, pregando com firmeza o fim do cativeiro. Muitas de suas obras eram publicadas em capítulos, pela imprensa da época, e chegaram a alcançar razoável difusão.

Nome emblemático do naturalismo no Brasil, Júlio Ribeiro, mineiro de Sabará, onde nasceu em 1845, lançou “A carne” em 1888, na linha do célebre movimento literário liderado pelo francês Emile Zola, autor de “O romance experimental”, de 1880. Aluno, no Rio de Janeiro, da Escola Militar da Praia Vermelha, onde ingressou em 1860, Ribeiro assimilou a ideologia progressista, laica, racionalista, cientificista e republicana daquele ambiente, o que aparece, em boa medida, na sua literatura. “A carne” despertou a fúria de vários segmentos da sociedade, sobretudo dos moralistas, que qualificaram o livro como uma ‘obra de escândalo’, devido, sobretudo, ao desejo e ao comportamento sexual das personagens. O fato é que Ribeiro conseguiu questionar muitas das estruturas sociais vigentes à sua época.

A aula seguiu por mais de duas horas e foi curta para abordar a riqueza e a diversidade da literatura produzida em Minas Gerais, sem dúvida um dos estados da federação mais potentes e expressivos no campo da produção literária. Afinal, daqui saíram o mais importante poeta do século vinte (Drummond), o mais importante memorialista (Nava) e o mais importante prosador (Rosa).

*Jornalista e presidente da Academia Mineira de Letras