ROGÉRIO FARIA TAVARES*

Tardia, a consolidação do mercado editorial brasileiro é fenômeno da segunda metade do século vinte, quando a cadeia produtiva do livro encontrou condições mais adequadas para organizar-se e expandir-se, acompanhando, naturalmente, a modernização da economia nacional.

Ao longo do tempo, sobretudo a partir da virada do milênio, a ampliação do acesso à educação, em todos os níveis, resultou no aumento do universo de leitores e também obrigou o poder público a alargar os seus investimentos no grande programa de compras governamentais de livros didáticos, para distribuição na rede de ensino.

Fundamental para a sobrevivência de muitas editoras, a relação com o Estado não deve, no entanto, ser a única – nem a principal – fonte de recursos para os referidos negócios, que precisam apostar no interesse de diferentes tipos de consumidores pelos seus lançamentos.

O caminho para chegar até eles, entretanto, não é fácil. A verdade é que os livros sofrem, atualmente, forte concorrência de outros meios de informação e entretenimento. Na sociedade ruidosa e tumultuada em que vivemos, está cada vez mais complicado conquistar a atenção e o tempo das pessoas, diariamente submetidas a uma massa gigantesca de textos muitas vezes sem qualidade e nada confiáveis, a maior parte emitida por canais digitais.

A proliferação das chamadas fake news é apenas mais uma expressão desse ambiente confuso, em que nem sempre é simples distinguir o conhecimento e a ciência do boato e da mentira. Num mundo assim, cresce a importância da chamada ‘curadoria de conteúdo’, exercida por profissionais de trajetória consistente no jornalismo cultural e experiência suficiente para separar o joio do trigo.

Foi o que encontrei há três anos, quando comecei a assinar a ‘Quatro cinco um’, revista mensal fundada por Paulo Werneck e Fernanda Diamant para apresentar, criticar e refletir sobre publicações dos mais variados campos do saber humano, aí incluídos a literatura de ficção, o direito, a música, a poesia, o teatro, a história, a política, a filosofia, a educação…

Tendo o excelente Humberto Werneck como editor sênior, “Quatro cinco um” não despreza a literatura infantojuvenil, focalizada na seção “Rebentos”. Fundamental para alguém como eu, pai de duas crianças, é onde acho preciosidades literárias para Carlos e Gabriela que talvez não descobrisse se resolvesse apenas navegar pela internet, sem bússola.

Outro prazer é percorrer o ‘Listão’ que ocupa as últimas páginas de toda edição, e em que é possível ter uma ideia bastante boa das novidades editoriais em vinte áreas. Pelo exemplar de julho, por exemplo, tive a alegria de saber que já está disponível o novo livro organizado pelo professor Eduardo Assis Duarte, da UFMG: “Machado de Assis. Afrodescendente”, da Editora Malê. Como não ler?

Num país que precisa, mais do que nunca, combater a ignorância e a truculência, inimigas da civilização e do progresso, “Quatro cinco um” acaba desempenhando outras duas funções fundamentais: a de devolver ao livro o protagonismo que ele nunca deveria ter perdido, e a de formar, nas novas gerações, o gosto e o entusiasmo pela leitura, hábitos sem os quais a população brasileira dificilmente terá como livrar-se do atraso e do subdesenvolvimento.

*Jornalista e presidente da Academia Mineira de Letras