Crédito: Fernando Frazão/Agência Brasil

ROGÉRIO FARIA TAVARES*

Único e original, não há como compreender o povo brasileiro sem lançar um olhar atento e sensível às culturas a partir das quais se originou, notadamente as africanas, as indígenas e a portuguesa. Ao longo do tempo, as ondas imigratórias tornaram ainda mais complexa e sofisticada a sua composição, enriquecida pela incorporação dos italianos, dos japoneses, dos poloneses… O que pode ser melhor que essa diversidade? Como dizia Darcy Ribeiro: “Mestiço é que é bom…”

As culturas africanas, de que trato na coluna de hoje, são de uma potência incrível. Quem quiser se aprofundar no tema deve ler a monumental obra de Alberto da Costa e Silva, o grande africanista brasileiro, membro da Academia Brasileira de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Entre seus livros dedicados ao continente, são indispensáveis “A enxada e a lança: a África antes dos portugueses” e “A manilha e o libambo: A África e a escravidão, de 1500 a 1700.”

Com seu vigor, competência e criatividade, africanos e afrodescendentes geram contribuição inestimável ao edifício da civilização humana. Para ficar apenas no campo que me é mais caro, o da literatura, basta citar dois nomes fundamentais da produção literária brasileira para reiterar o seu valor: Machado de Assis e Lima Barreto. Ao longo do século vinte, não foram poucos os que se somaram ao notável grupo dos escritores afrodescendentes. Entre os mineiros, Carolina Maria de Jesus, Adão Ventura, Conceição Evaristo, Ricardo Aleixo e Edimilson de Almeida Pereira (já comparado pela imprensa nacional a João Cabral de Melo Neto) são apenas alguns dos excelentes poetas e prosadores a merecer o devido reconhecimento. No campo da produção editorial, Minas Gerais também se destaca. Há décadas, Maria Mazzarelo Rodrigues conduz a Mazza Edições, com a garra e o brilho que lhe são peculiares. A Editora Nandyala, da professora Íris Amâncio, é outra iniciativa valiosa, que também promove os autores afrodescendentes e a sua cultura.

A propósito, o Dia da Consciência Negra, celebrado anteontem, numa evocação à data de falecimento de Zumbi dos Palmares, igualmente oferece uma oportunidade para refletir sobre a história do Brasil e, sobretudo, sobre a violência e as tensões que caracterizaram as suas relações étnicas, desde a colonização. É impossível ignorar, por exemplo, o peso e os efeitos de quase trezentos anos de escravidão sobre nossa vida social, até hoje marcada por esse nefasto acontecimento. Vale a pena, a respeito, ler os trabalhos de João José dos Reis (principalmente os excelentes “Escravidão e invenção da liberdade” e “Negociação e conflito: a resistência negra no Brasil escravista”) e Lilia Schwarcz (“Retrato em branco e negro: jornais, escravos e cidadãos em São Paulo no fim do século XIX” e “O espetáculo das raças. Cientistas, instituições e pensamento racial no Brasil: 1870 – 1930”), sem esquecer de um lançamento mais recente e importante, já que visa público amplo: o primeiro volume da trilogia do competente jornalista Laurentino Gomes sobre o tema da escravidão. Se buscamos uma sociedade melhor, mais justa, mais fraterna e solidária, é preciso conhecer bem o nosso passado e enfrentar, de peito aberto, os problemas até hoje sem solução.

*Jornalista e presidente da Academia Mineira de Letras