CREDITO: ALISSON J. SILVA

ROGÉRIO FARIA TAVARES*

A literatura foi o tema principal da agradável conversa entre amigos nessa semana, pelo zoom, organizada pelo incansável Milton Nogueira, funcionário das Nações Unidas em Viena. Amante das artes, e anfitrião, ao lado de Emília, de memoráveis saraus em sua residência de Belo Horizonte, é personalidade que merece todas as homenagens da comunidade mineira, seja por sua sensibilidade social, seja pela capacidade de agregar pessoas em torno das causas que realmente importam.

Coube aos participantes da roda falar sobre o seu ‘livro inesquecível’. Nada melhor nesses tempos de pandemia, quando ler e escrever têm sido atividades fundamentais para exercitar a mente e combater as sensações resultantes do confinamento forçado. Preferi focalizar uma autora marcante e, de novo, mencionei Lúcia Machado de Almeida, dando destaque a duas de suas obras: “O caso da borboleta Atíria” e “O escaravelho do diabo”, sucessos nacionais de público e de crítica nas décadas de setenta e oitenta.

Irmã de Aníbal Machado, tia de Maria Clara Machado e do saudoso acadêmico Ângelo Machado, a escritora foi best seller por muitos anos, ajudando a famosa Coleção Vaga Lume, da Editora Ática, a manter-se no topo de todas as listas. Na videoconferência, ressaltei a habilidade de Lúcia em comunicar-se com o público juvenil, sem infantilizá-lo. Ela fazia o contrário, valorizando a sua inteligência e a sua sagacidade. Foi uma mestra.

O embaixador Sérgio Duarte, diplomata e tradutor (expert em Dante e Petrarca, entre outros), resgatou a figura imensa de Monteiro Lobato, chegando a dizer, de cor, trechos inteiros das “Caçadas de Pedrinho” e das “Reinações de Narizinho”. Habitante da memória afetiva de praticamente todos os presentes, o criador do “Sítio do Picapau Amarelo” também foi, além de engenhoso escritor, um empreendedor notável, chegando a perfurar poços de petróleo em vários campos.

Um dos líderes da campanha “O petróleo é nosso”, que resultaria, anos depois, na fundação da Petrobrás, acreditava fortemente no poder da economia brasileira, fundamental para a emancipação do povo. Tenaz, igualmente investiu no mercado editorial, num momento em que a maioria dos livros do país ainda era editada na França ou em Portugal. Com a fundação da sua Companhia Editora Nacional, contribuiu para o amadurecimento da cadeia produtiva do setor, investindo em novas formas de distribuição e de divulgação dos seus lançamentos. Sabia exatamente o quanto a democratização do acesso à literatura e a ampliação das oportunidades de leitura eram cruciais para o desenvolvimento da nação.

Tomara que a evocação do legado de Lobato sirva para lançar algumas luzes sobre o debate público atual, empobrecido e brutalizado por argumentos bizarros, senão patéticos, que ignoram – ou desmerecem – o papel do livro e da leitura para a educação, a cultura e a ascensão social das classes menos favorecidas.

Reonerar a sua produção é atitude claramente contrária ao espírito das constituições brasileiras, desde pelo menos 1946. Afinal, a chamada ‘imunidade tributária’ para os livros não é favor, nem privilégio, nem concessão. É instrumento de promoção da cidadania

*Jornalista e presidente da Academia Mineira de Letras.