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Rogério Faria Tavares*

Em onze décadas de existência, a Academia Mineira de Letras (AML) abrigou intelectuais de trajetórias variadas, confirmando a vocação da instituição para a diversidade e a convivência fraterna entre os diferentes.

Afinal, é na divergência (elegante, é claro) que o pensamento humano se refina e se aprimora. Além de poetas e prosadores, professores, filósofos e cientistas, ao longo de sua história a Casa de Alphonsus de Guimaraens também acolheu médicos ilustres, de forte afinidade com o campo da cultura, das artes e das letras.

Em palestra virtual para os integrantes da Academia Mineira de Medicina, nessa semana, tive a alegria de relembrar pelo menos oito antigos membros da AML que vieram da medicina.

O primeiro presidente da academia era médico. Eduardo de Menezes foi um dos fundadores da nossa entidade, em 1909, ao lado de nomes como Machado Sobrinho, Belmiro Braga e Brant Horta. Nascido em Niterói, foi membro da Imperial Academia de Medicina e professor adjunto da primeira cátedra de clínica médica.

Depois de haver trabalhado na Europa com Pasteur e Charcot, regressou ao Brasil, fixando-se em Juiz de Fora, onde abriu consultório. Incansável, fundou a Sociedade de Medicina e Cirurgia daquela cidade, a sua Escola de Farmácia e Odontologia e a Liga Mineira contra a Tuberculose. Hoje, o seu nome batiza um dos mais importantes centros de tratamento do coronavírus da capital do Estado.

Zoroastro Vianna Passos nasceu em Sabará, formando-se em medicina no Rio de Janeiro. Livre docente e Catedrático da então Universidade de Minas Gerais, foi diretor do Hospital Militar e Presidente da Cruz Vermelha entre 1935 e 1942.

Natural de Oliveira, Paulo Pinheiro Chagas formou-se em medicina em 1930, quando participou do movimento político que derrubou Washington Luís. Sete anos mais tarde, também se graduou em Direito. Na imprensa, fundou o lendário jornal “O Debate”.

Em 43, assinou o Manifesto dos Mineiros. Um dos fundadores da UDN, foi um dos raros casos de udenista que depois migrou para o PSD. Deputado federal e secretário de Estado, foi também ministro da Saúde, durante o governo de João Goulart. Sua biografia de Teófilo Otoni é uma obra-prima. Seu livro de memórias, “Esse velho vento da aventura” é volume indispensável a qualquer biblioteca de qualidade.

Na conferência, também falei sobre Sylvio Miraglia, João do Vale Maurício, Hilton Rocha e Ângelo Machado, mas jamais poderia omitir o nome de um dos médicos que mais marcou a vida da nossa academia: Juscelino Kubitscheck de Oliveira.

Nascido em Diamantina e formado em 1927, JK fez especialização em urologia em Paris. Foi prefeito de Belo Horizonte, governador do Estado e presidente da República, como todos sabem. O que devo destacar de sua rica personalidade, no entanto, é o apreço que sempre nutriu pela educação e pela cultura.

Cercando-se de um grupo de intelectuais de alto padrão, como Autran Dourado, Alphonsus de Guimaraens Filho, Augusto Frederico Schmidt e os componentes do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (Iseb), como Hélio Jaguaribe e Cândido Mendes, entre outros, soube dialogar com civilidade e respeito com o que havia de melhor na chamada ‘inteligência brasileira’, o que resultou em imensos benefícios para o seu governo e para a população. Bons tempos, aqueles.

*Jornalista e presidente da Academia Mineira de Letras