Rogério Faria Tavares* 

O jovem Paulo Rónai não demorou a perceber que, em pouco tempo, seria impossível continuar morando na sua Hungria natal, ou mesmo no continente europeu, crescentemente ameaçado pela brutalidade típica do nazi-fascismo e a sua doentia perseguição ao povo judeu. Foi quando começou a estabelecer pontes com o exterior. Datam dessa época suas primeiras leituras de textos literários brasileiros.

Hábil no manejo de vários idiomas, incluiu a língua portuguesa no rol de seus interesses. E continuou travando contatos com a nossa cultura. Em 1941, depois de passar cerca de seis meses num campo de trabalhos forçados, finalmente conseguiu sair de seu país, vindo a estabelecer-se, para sempre, em território brasileiro.

Determinado, Paulo Rónai ainda logrou trazer boa parte de sua família para o Rio de Janeiro, livrando-a do sofrimento e da morte. Intelectual de primeira linha, logo firmou-se como professor e ensaísta, vindo a publicar resenhas em diversos jornais do Brasil. Com Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, editou, em dez volumes, a impressionante “Mar de Histórias”, uma coleção de contos de todos os cantos do planeta, fruto de décadas de pesquisa. A série reúne 245 textos de cerca de duzentos autores, de mais de quarenta países. Com talento inegável para a fraterna convivência social, circulava com facilidade no meio da intelectualidade, relacionando-se amistosamente com Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles e Ribeiro Couto, entre outros.

Sua amizade com João Guimarães Rosa começou quando Rónai precisou resolver uma questão no Ministério das Relações Exteriores, onde foi atendido pelo gênio de “Grande Sertão: veredas”. A uni-los, o gosto pelo aprendizado das línguas, pela tradução e a paixão entusiasmada pela literatura. Em 46, quando lançou “Sagarana”, Rosa escreveu, em carta, ao Embaixador Azeredo da Silveira, que apenas Rónai e o mestre Antônio Cândido conseguiram penetrar nas camadas mais profundas do seu texto.

Até hoje, ambos são considerados os ‘leitores precursores’ do autor, aqueles que abriram caminhos preciosos de interpretação e análise de suas histórias para as gerações posteriores, em que pontificaram nomes como Walnice Nogueira Galvão, Davi Arrigucci Jr., Eneida Maria de Souza e Márcia Marques de Morais. O interesse do húngaro pela obra do imortal de Cordisburgo prosseguiu ao longo de toda a carreira literária que o mineiro soube tão bem construir. Perspicaz, Rónai soube enxergar o tamanho de Rosa, situando-o como uma voz universal, não como um expoente do regionalismo.

Quem ama Guimarães Rosa, portanto, não tem como deixar de ler o ótimo “Rosa & Rónai – O universo de Guimarães Rosa por Paulo Rónai, seu maior decifrador” (Bazar do Tempo, 304 páginas), lançado há poucos dias. Organizado por duas estudiosas de Paulo Rónai, Ana Cecília Impellizieri e Zsuzsanna Spiry, o livro reúne todos os ensaios do crítico sobre o escritor, dando ao leitor a chance de acompanhar a fina evolução do seu pensamento e da sua reflexão sobre o universo rosiano, servindo para iluminá-lo com inteligência e sofisticação.

*Jornalista. Doutor em Literatura. Presidente da Academia Mineira de Letras