Construída em tempo recorde, menos de 4 anos, Brasília é a maior área tombada pela Unesco no mundo | Crédito: EBC

Marita Arêas*

Um orgulho para a engenharia nacional, a construção de Brasília pode ser considerada, sem sombra de dúvida, um marco histórico, não só do País, mas de alcance mundial, principalmente pela obra urbanística arrojada e moderna, considerada Patrimônio Mundial da Humanidade pela Unesco, além de possuir a maior área tombada do mundo.
Inicialmente prevendo-se uma população de 500 mil habitantes, sua região metropolitana tem hoje perto de 3 milhões de habitantes.

Há registros de que nos 3 anos e 10 meses de sua construção, foram edificados, nesse tempo recorde, mais de 500 mil metros quadrados, resultando na média perto de 500 metros quadrados por dia.

Ressalte-se que não foram edificações simples e pré-moldadas, mas sim de alta complexidade, desde os cálculos aos detalhes construtivos, em respeito à simetria do urbanista Lúcio Costa e às audácias do arquiteto Niemeyer, contando com a competência do engenheiro estrutural Joaquim Cardozo e do engenheiro Israel Pinheiro, responsável pela execução das obras, de suas equipes técnicas e de milhares de candangos, em um trabalho desafiador, incessante e repleto de entusiasmo. Tudo isso sem contar com equipamentos de alta tecnologia dos dias atuais, sem meios de comunicação, com a precariedade de estradas para transporte de materiais e equipamentos.

Ao mesmo tempo, foram construídas vias públicas, os eixos Monumental e Rodoviário, com todos os seus acessos; a barragem e usina hidrelétrica do Paranoá, para cumprir três das necessidades básicas da nova capital: urbanística, melhoria da umidade da região e geração de energia.

O sistema de abastecimento de água e de distribuição de energia elétrica, grande parte em rede subterrânea e finalmente, o sistema de comunicação por micro-ondas com o País e o mundo, foram inaugurados simultaneamente com a nova capital em 21 de abril de 1960.

Acrescente-se, ainda, a audácia desmedida do presidente Juscelino Kubitschek, que fixou previamente a data de sua inauguração sem arredar pé de sua meta, tendo pela frente inúmeros contratempos e condicionantes devido à falta de infraestrutura para uma construção desse porte no meio do nada, no Planalto Central do País. E ainda, enfrentando fortes reações de ordem política e econômica que dividiam a população entre os que eram a favor e contra JK; pró e contra a mudança da capital; pró e contra os gastos considerados exorbitantes.

Fato ou lenda, entre as críticas ouvia-se comentários como: “Juscelino está transportando tijolos e concreto em avião para a construção de Brasília!” Eu mesma, estudante de engenharia na época de sua construção, participei dessa dicotomia no âmbito familiar, em discussões intermináveis entre meu pai, contra as possíveis consequências da ousadia de JK, e seu irmão Carlos Souza, grande admirador e defensor incondicional do presidente. De minha parte, talvez movida pelo arrojo, idealismo e sonhos próprios da juventude, me colocava sempre a favor dos argumentos de meu tio.

Passados 60 anos, a população ainda hoje se coloca dividida, entre os que consideram JK como o maior presidente que o Brasil já teve, que impulsionou o desenvolvimento do País com seu Plano de Metas Cinquenta Anos em Cinco, e aqueles que não o perdoam pela alta da inflação provocada nos anos que se seguiram à construção de Brasília, mesmo com o inconteste benefício que a mudança da capital trouxe para o desenvolvimento de uma vasta e rica região despovoada do País.

Fato talvez desconhecido por grande parte dos brasileiros, vale lembrar que o Plano de Metas Cinquenta Anos em Cinco, idealizado por Lucas Lopes e Roberto Campos para a campanha eleitoral do presidente JK, não incluía a mudança da capital para o Planalto Central. Mas, já em campanha, quando em um comício na cidade goiana de Jataí, ao terminar o seu discurso, JK indagou se alguém desejava fazer-lhe alguma pergunta.

Um popular adiantou-se e o interpelou com a seguinte questão: “Já que o senhor se declara disposto a cumprir a Constituição, desejo saber se irá colocar em prática aquele dispositivo da Carta Magna, que determina a transferência da capital da República para o planalto goiano.”

O próprio JK afirmou no livro de sua autoria “A Escalada Política – Meu Caminho para Brasília – Volume II”, que até então essa ideia lhe parecia utópica e irrealista, mas que naquele momento seu espírito inquieto e movido a desafios o fez responder com firmeza: “Acabo de prometer que cumprirei, na íntegra, a Constituição. Durante o meu quinquênio, farei a mudança da sede do Governo e construirei a nova capital”.

Foi assim que o goiano que inqueriu Juscelino Kubitcheck, identificado como o coletor estadual Antonio Carvalho Soares, entrou para a história transformadora do País naquele dia 4 de abril de 1955, e o Plano de Metas do Governo JK foi acrescido da denominada Meta-Síntese, a construção de Brasília.

*Engenheira e vice-presidente do Conselho Deliberativo da SME