Crédito: Du Amorim/A2 Fotografia

Danilo Prado*

Após um ano de otimismo e de um cenário positivo, hoje não conseguimos mais visualizar um horizonte minimamente assertivo e preciso para o País. A pandemia provocada pelo Covid-19 já é considerada por muitos especialistas e estudiosos a maior crise dos últimos 100 anos. Estes mesmos especialistas avaliam que a contração da atividade econômica global terá impacto nunca visto antes.

Apesar das incertezas e da onda de pessimismo, podemos esperar mudanças no contexto nacional após o Covid-19 que gerarão progressos e oportunidades para diversos setores, principalmente a construção pesada. Olhando para os livros, aprendemos que sempre após uma grande catástrofe, guerra ou crise, temos vários anos de crescimento e desenvolvimento.

Historicamente, o PIB brasileiro tem uma forte elevação após acontecimentos de crise e isto justificava o otimismo que estávamos vivendo no ano passado, pois estávamos saindo de uma das piores crises econômicas das últimas seis décadas. Tínhamos certeza de que teríamos pelo menos quatro a seis anos de alta do PIB, com uma projeção de crescimento acumulado acima dos 14 pontos percentuais neste período.

Mesmo com a nova onda do home office, algumas áreas da economia somente acontecem do lado de fora da casa. As pessoas da construção pesada precisam ir para as obras para que tudo possa acontecer. Há algum tempo escrevi sobre a falta de inovação na construção pesada, mas podemos tirar proveito desta situação e ajustar algumas áreas e setores mais administrativos para atuar de forma mais inovadora e organizada.

Quem sabe, inclusive, aproveitar as novas habilidades do trabalho remoto e implantar soluções diferentes que reduzam os custos e melhorem a performance das obras. Ainda não conseguimos definir um modelo e somente a prática irá tornar isto uma realidade, mas quem for inovador sairá na frente e colherá bons frutos a médio e longo prazos.

A única certeza que tenho é que na construção, a geração da receita somente é feita em campo, com homens e equipamentos trabalhando duro, de sol a sol, e isto não temos como mudar. Portanto, o isolamento social afeta, e muito, o nosso setor.

Mas, como gerar receita se a pandemia irá afetar fortemente a economia? A saída está nas mãos dos governos, tanto federal quanto estadual e municipal. A relação entre infraestrutura e crescimento econômico é bem estabelecida nas experiências do mercado de construção, dado que o capital investido na construção civil e infraestrutura afeta o retorno dos insumos, estimulam o crescimento da indústria e a geração de empregos em várias áreas.

Girando como engrenagens perfeitas, a ligação entre a gestão pública, a construção e a economia mostra que, para uma dada quantidade de fatores, quanto maior o investimento na infraestrutura, maior será o retorno econômico, melhorando o crescimento do PIB.

Uma infraestrutura adequada gera maior competitividade, fato que, por sua vez, se traduz em uma elevação considerável do volume de produção, comercialização e exportações. A melhoria na logística e na estrutura de transporte, tanto público quanto privado, são fatores imprescindíveis para o desenvolvimento econômico e gera empregos em diversas áreas da indústria e em todas as classes sociais.

Sim, a construção, civil e pesada, é capaz de absorver um grande volume de trabalhadores de forma rápida e democrática, pois emprega desde serventes, pedreiros, motoristas, operadores de máquinas até os projetistas e engenheiros especializados. Diante disso, o investimento na construção pesada precisa ser prioridade na agenda das políticas públicas após o Covid-19, para recuperar a economia e aliviar os problemas decorrentes da pandemia que estamos vivendo.

Pautando-se nessa conexão entre política, crescimento econômico e infraestrutura, buscamos uma análise mais estratégica e positiva dos nossos gestores quanto ao futuro do Brasil. Considerando os cenários incertos, torna-se fundamental a ampliação dos investimentos públicos e o estímulo a investimentos privados nos setores da construção. Isso unirá o útil ao agradável, pois temos condições de estimular a economia e, em paralelo, resolver problemas que temos há vários anos.

O ministro da Infraestrutura, Tarcísio Freitas, tem dado sinais de que após a pandemia várias ações serão tomadas para estimular os investimentos. Neste momento, temos é que cuidar da saúde da população. Mas esperamos bons ventos para o setor da construção pesada no próximo semestre.

*Presidente da Comissão Técnica de Construção Pesada da SME. Atuando na área há 19 anos, atualmente está na ECB, empresa ligada ao grupo português Mota-Engil