Marcelo Camargos/EBC e Ananda Perobelli/Reuters/EBC

Patrícia Bozon*

Me inquieta a exaltação isolada de movimentos e lideranças ambientalistas quanto aos baixos índices de poluição atmosférica como consequência do “shutdown” mundial para o controle da pandemia do Covid-19, por dois motivos básicos.

Primeiro, pela indivisibilidade do prognóstico e o remédio. Certa liderança ambiental, em um veículo das redes sociais, fez um comentário brincalhão: cadê a poluição que estava aqui? Responderia: nas covas de milhares, nos caixões de outros que nem direito a cova tiveram. Nas muitas lágrimas da fome, do desespero e de mais mortes de milhões do porvir.

Segundo, porque esquecem de mensurar o aumento exponencial de toneladas de material descartado – se com muita sorte – adequadamente, como os equipamentos de proteção, que devem ser trocados frequentemente.

Podem dizer: não se faz omelete sem quebrar os ovos. Minha escolha será sempre trocar o cardápio, se os ovos forem representação da vida de seres humanos.

Entretanto, gosto do mantra, que também circula nas redes sociais, de que não podemos voltar ao normal, pois o normal é que nos conduziu para este caos. Revelado pelo mundo desenvolvido, ou em desenvolvimento, na falta de preparo para uma situação previsível, conforme bem colocada pela grande liderança empresarial, Bill Gates, há quatro anos e, que, portanto, poderá se repetir.

Assim, me inquieta também a ausência de movimentos organizados para discutir e formular políticas, programas e projetos estruturantes, não paliativos como até aqui colocados, que nos levem para um cenário de preparo real diante de um próximo ataque microscópico.

O vírus escancarou, mesmo aos olhos dos mais alienados, em países que pareciam social e ambientalmente em equilíbrio, o quão a desigualdade social, o desprezo pelos sistemas de saúde pública e a superficialidade das políticas ambientais, com base no comando e controle – geradoras de muitos processos e pouco resultados – são maléficos e globais.

Li recentemente belo artigo de Marcelo Furtado, da Coalizão Brasil Clima, Floresta e Agricultura, em que expressa uma convocação: “É preciso evitar que os investimentos para a recuperação econômica se destinem à velha economia, a mesma que gerou atendimento precário à saúde, forte desigualdade, desmatamento e dependência de combustíveis fósseis, entre outras mazelas. Podemos transformar o legado desta terrível pandemia em um novo começo”.

É de fato hora de união, hora de as grandes lideranças ambientais aliarem-se, sem sectarismo e embotamentos ideológicos, às agendas econômicas e sociais em torno da construção de uma nova ordem, um novo recomeço. Como tão bem nos ensina o Papa Francisco, na Encíclica Laudato Si, de 2015: engenhar novas estratégias para solução de uma crise complexa, o que demanda uma abordagem integrada para combater a pobreza, restaurar a dignidade dos excluídos e, ao mesmo tempo, proteger a natureza.

O sistema econômico dominante, vê-se, está ultrapassado, não responde aos desafios desse nosso século, e as crises são cada vez mais frequentes. O Brasil, por sua vez, é o único país com características biogeofísicas capazes de gerar riquezas de grandes proporções, a partir de uma opção econômica fortemente ancorada em bases sustentáveis.

Em nosso país, graças à sua pujante biodiversidade, aliada a um conceituado parque de pesquisa, ciência e tecnologia, engenho criativo de seu povo e uma agroindústria competitiva e aberta para a revolução 4.0, temos todas as condições de projetar esse novo cenário de desenvolvimento.

Podemos e devemos, conforme o professor Paulo Haddad, em seu livro “Uma introdução à economia do Século XXI”, implementar uma nova “trajetória de desenvolvimento, onde os recursos naturais sejam elementos pivotais de um novo ciclo de expansão”, economicamente eficiente, socialmente justo e ambientalmente sustentável. Fica aqui o desafio: que possamos então, tal como proposto na União Europeia, construir uma aliança para estruturar uma saída verde para a crise econômica do coronavírus.

*Engenheira e integrante da Comissão Técnica de Recursos Hídricos da SME