Fernanda Brum investiu no aperfeiçoamento (direita); Andreia Costa, que trabalha com coach pessoal, recomenda ênfase em conexões | Crédito: SME/Divulgação

Elvis Roberto Moreira é arquiteto. Formou-se em 2018 e trabalha com autônomo. Não é o seu sonho, mas, no momento, é o que conseguiu de trabalho. Para ele, 2019 foi muito pior que 2020. “Esse ano, apareceram mais clientes e alguns escritórios mais consolidados estão me passando mais trabalhos”, afirma.

Izac Parreira da Silva ainda não se formou. Está no sétimo período de engenharia e é estagiário de um escritório de arquitetura, onde faz aquilo que sempre foi o seu sonho: cálculo estrutural. “Difícil foi dar o primeiro passo. Mas, quando você dá o primeiro passo, o segundo é mais fácil”, afirma Izac Silva.

Carolina Ambrósio formou-se há dois anos e já está empregada. Quando estudante, era estagiária de uma empresa de engenharia. Assim que se formou, a empresa efetivou-a como funcionária, com carteira assinada e todos os direitos trabalhistas. Ela faz o que sempre foi o seu desejo: trabalhar na linha de frente, no canteiro de obras.

Fernanda de Souza Brum formou-se em engenharia de produção há cinco anos, mas ainda não conseguiu emprego na área. Para manter-se, trabalha como atendente em um call center. Em 2014, ela era estagiária de uma empresa na área automobilística e teria seu contrato de estágio renovado. Estava otimista quanto à sua efetivação no ano seguinte, quando se formaria. Mas veio a crise econômica e, junto, a interrupção de seu sonho.

Elvis Moreira, Izac Silva, Carolina Ambrósio e Fernanda Brum fazem parte da legião de milhares de jovens brasileiros que entram para a faculdade de engenharia, ou arquitetura e, depois, são obrigados a enfrentar a batalha do primeiro emprego. É uma batalha árdua. Os caminhos são vários, mas a receita é comum: persistir, pois, no atual cenário, emprego não cai do céu.

Formação – Na persistência está Fernanda Brum, que continua de olho nas possibilidades de contratação em sua área. Persegue todas as vagas que aparecem. E continua aprimorando sua formação. Para isso, fez uma segunda graduação, ciências contábeis, para agregar valor à sua formação principal, e um curso de inglês, que, em sua área, é considerado requisito básico para quem pretende entrar no mercado.

Izac Silva afirma que o mercado para profissionais especializados em cálculo estrutural não está ruim. Mesmo assim, diz que não está sendo possível fazer muitas escolhas. Seu sonho é trabalhar com carteira assinada em uma empresa de engenharia, mas diz que, se isso não for possível, irá caminhar para o empreendedorismo, abrindo uma empresa especializada em cálculo estrutural. Para ele, o mais importante para quem pretende seguir na profissão é valorizar os estágios como porta de entrada para o futuro emprego. “O estágio é importante, porque ele é quem vai te abrir a porta do conhecimento e da experiência”, afirma Izac Silva.

Quem também recomenda o estágio como porta de entrada é Carolina Ambrósio. Segundo ela, é no estágio que o aluno começa a construir suas relações de trabalho e a demonstrar seu interesse pela empresa e pelo aprendizado prático que lhe é proporcionado. Segundo Carolina Ambrósio, o estágio bem feito funciona como um cartão de visitas, que, no caso dela, deu certo.

Quem também reforça a importância do estágio é Elvis Moreira, pois esta é uma das barreiras que está enfrentando para conseguir o trabalho com carteira assinada, como é seu projeto. Segundo ele, a maior parte das empresas que procurou dá prioridade à contratação de estagiários.

Porém, a despeito disso, ele segue na procura, construindo seu próprio caminho, por ora, como autônomo, que ele também considera uma boa alternativa de trabalho, pulando uma etapa, que era a de adquirir experiência com grandes construtoras. “Tive que trabalhar com minhas próprias pernas, ainda que devagar e muito dependente de parcerias com outras pessoas”, afirma Elvis Moreira, para quem o empreendedorismo parece ser o cenário mais visível em seu horizonte profissional.

Cenário de mudanças – As histórias de Elvis Moreira, Izac Silva, Carolina Ambrósio e Fernanda Brum são parte da história das profundas mudanças pelas quais a engenharia brasileira passou nos últimos 30 anos. Há três décadas, o desejo de alguém que começava o curso de engenharia era apenas um: conseguir um emprego em uma empresa de engenharia e lá fazer carreira. Hoje, três décadas depois, o Brasil viveu o boom da engenharia e, depois, a crise. Nesse meio tempo, ocorreu outro boom, o das novas tecnologias.

No cenário atual, há cerca 400 mil engenheiros que se formaram, mas não conseguiram trabalho. Há também uma busca desenfreada por uma saída. Um sinal disso é a mudança no perfil do engenheiro, que hoje está presente nos canteiros de obras, mas também na área comercial de empresas de engenharia e, até mesmo, nos departamentos de recursos humanos.

Por isso, uma dica para estudantes e profissionais em início de carreira é que diversifiquem suas buscas por trabalho ou emprego, deixando de ter como foco apenas as áreas tradicionais da engenharia, que são as de projeto e acompanhamento de obras. O conselho foi dado pela psicóloga Mariana Coelho, analista sênior de Recursos Humanos da ArcelorMittal, que participou de debate sobre o assunto na Sociedade Mineira de Engenheiros (SME).

Um exemplo dado por ela foi o de que na área comercial da companhia em que trabalha todas as últimas contratações foram de engenheiros. “Temos que mudar e olhar quais são as outras perspectivas que não apenas as tradicionais que se costumava olhar”, afirmou Mariana Coelho.

Quem reforça essa dica é o engenheiro Guilherme Garcia, CEO da Garc Engenharia, que se apoia em dados do Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura de São Paulo (Crea-SP), que aponta a existência de 2.760 tipos de responsabilidades técnicas que podem ser assumidas pelo engenheiro em inúmeras atividades, além da engenharia civil, como nas indústrias naval e de aeronáutica, no setor têxtil, na área ambiental e na indústria de alimentos.

Inovação – “O mercado de trabalho tradicional não existe mais. A forma de se procurar emprego também não. É preciso inovar”, adianta a administradora de empresas  Andreia Costa, que trabalha com coach pessoal e análise comportamental. Nesse cenário, marcado por mudanças profundas, é fundamental, segundo ela, que o profissional abra mão de alguns conceitos muito arraigados.

Um deles é o de que a formação acadêmica, por si só, garante o emprego. Não é verdade. Segundo Andreia Costa, o mercado, mais do que a formação, valoriza hoje o profissional que tem grande capacidade de adaptar-se a situações novas. “Soluções antigas não resolvem problemas novos”, ressalta. Para isso, ela recomenda que os profissionais reservem um tempo para se manterem atualizados sobre as novas tendências. “Temos que aprender a desaprender. Temos que nos desfazer de crenças para continuar no mercado e buscar a inovação. Temos que nos desapegar de coisas antigas para deixar o novo entrar e as coisas fluírem na nossa vida”.

O que Andreia Santos recomenda é que o profissional invista seu tempo na criação de conexões. Um dos melhores canais para isso, segundo ela, é o Linkedin, que deve ser utilizado com o objetivo único de buscar visibilidade no mercado de trabalho. Para nada além disso. Nessa plataforma, o profissional deve buscar conexões não apenas com pessoas que ela conhece, mas, principalmente, com as que poderão ajudá-lo a atingir seus objetivos, mesmo que não sejam de seu relacionamento. A isso, ela acrescenta como algo importante a interação, pois, segundo Andreia Santos, quando mais isso ocorre, mais o algoritmo do Linkedin coloca a pessoa em evidência na plataforma. (Material produzido pela SME)

ANOTE AÍ

• Diversifique as buscas: Há vagas em áreas que não apenas as de projeto e obras
• Busque adaptar-se ao novo cenário: Mercado valoriza capacidade de adaptação a novos cenários
• Invista em conexões: Objetivo deve ser aumentar sua visibilidade no mercado

SME discute hoje, em webinar, transporte no pós-pandemia

Na pandemia, todos os setores da economia foram duramente atingidos. Um deles é o do transporte, que amargou redução tanto na área de cargas, quanto de passageiros. Um dos mais afetados é o transporte aéreo, que estima perdas da ordem de até 85%. O transporte rodoviário de cargas contabiliza perdas de 43,9%. Entretanto, o maior impacto, a exigir grande reflexão e revisão de políticas públicas, foi sobre o transporte urbano de passageiros por ônibus, que acumula perdas de faturamento superiores a 50%. Em situação semelhante, encontram-se as operadoras de transporte metro ferroviário, que apontam queda de receita da ordem de 80%.

Discutir a situação do setor de transportes no pós-pandemia é o objetivo da webinar que o movimento “Engenharia Já” promove hoje, a partir de 19h. Para a engenheira Patrícia Boson, organizadora do evento, nesse cenário de crise, a mobilidade urbana passa a ser um desafio, pois se o transporte público deixa de ser atraente pela aglomeração e risco maior de contaminação, o transporte individual tem como consequência o aumento dos níveis de poluição do ar.

“Quem não testemunhou no período do lockdown o céu mais azul e o ar mais puro, como resultado de menos carros na rua? Qual o modelo de mobilidade mais adequado e que deve ser pensado de forma a equilibrar a opção do transporte individual, sanitariamente seguro com a do transporte coletivo, de maior eficiência na qualidade do ar”, indaga Patrícia Boson.

Participarão do debate os engenheiros Adalberto Resende, que falará sobre a descarbonização no Transporte; Paulo Resende, da Fundação Dom Cabral (FDC), que falará sobre transporte e infraestrutura; e Eugênio Mattar, diretor-presidente da Localiza. Em sua fala, ele irá apontar o que muda na equação entre locação de veículos, transporte individual e transporte coletivo. O debate começa às 18h e vai até 19h30. Para participar, é preciso fazer inscrição pelo Sympla.