Crédito: REUTERS/Ciro De Luca

Aristoteles Atheniense*

O aumento de número de mortes na Itália, a cada dia, leva ao exame das causas da letalidade assustadora causada pelo coronavírus. A implantação da quarentena foi insuficiente para conter a pandemia, sem que o decreto baixado pelo primeiro-ministro, Giuseppe Conte, produzisse o resultado esperado. O premiê teve sua popularidade elevada de 44% em fevereiro para 71% em março.

A proibição imposta ao funcionamento do comércio, ao deslocamento não essencial da população, não impediu as caminhadas diárias, a frequência nos parques, as corridas individuais, assim como os passeios pela manhã com os animais de estimação.

O mesmo sucedeu às detenções implementadas pela polícia aos que passavam pela praça Duomo ou visitavam a Galeria Victor Emanuel, deleitando-se com aqueles monumentos e lojas.

O governador Attilio Fontana recorreu à colaboração do Exército para compelir as pessoas que permanecessem em casa, além de determinar o fechamento do comércio em Milão e demais cidades da Lombardia, proibindo as atividades esportivas.

Na semana passada, o vice-presidente da Cruz Vermelha chinesa, Yang Huichuan, falando à imprensa, declarou-se surpreso com o número de transeuntes, em Milão, que desafiavam as restrições policiais sem fazer uso de máscaras e a utilização dos transportes públicos superlotados. Segundo ele, as pessoas continuam passeando, frequentando os centros de diversão, participando de festas nos hotéis e jantares nos restaurantes, como se a presença do vírus não passasse de mera ficção.

Em todas as semanas, veículos militares são aliciados pelo município para transportar caixões funerários. A cremação diária atinge a 24 esquifes, enquanto outros aguardam por ordem de falecimento a incineração, que é feita na presença de familiares, para evitar o risco de contágio. Devido ao grande número de ataúdes, a inumação nem sempre ocorre na mesma cidade onde ocorreu o féretro.

Na concepção dos epidemiologistas ouvidos sobre o infortúnio que tomou conta da Itália, limitações impostas pelo governo foram adotadas com atraso, quando a pestilência já estava em evolução.

Os médicos convivem com o drama de ter que optar pelos pacientes que têm condições de sobreviver, comparados aos que se encontram em estado terminal, cujo tratamento não se justifica diante da falta de UTI e aparelhos respiratórios em número insuficiente para livrá-los do desfecho.

Em dezembro de 2019, o coronavírus surgiu na China, sem que o governo deixasse transparecer a sua existência, temeroso da repercussão negativa da praga e de sua repercussão externa. No curto espaço de quatro meses, o vírus deu a volta ao mundo, infectando 240 mil e dizimando mais de 10 mil pessoas.

Agora, após a intensificação de 81 mil casos, somente sete mil pacientes permanecem em tratamento, já havendo alguns casos de reabilitação.

Conforme informações passadas pela Organização Mundial de Saúde, a cidade de Wuham, epicentro da epidemia, pela primeira vez não registrou nenhum caso da doença, no período de 24 horas. O último hospital temporário, montado em poucos dias, já foi fechado. A poderosa Apple anunciou a reabertura das 42 lojas que mantém em território chinês. Bares e restaurantes, existentes na zona boêmia de Xangai, mais conhecida como Bund, encontram-se em pleno funcionamento.

A despeito dessas restaurações em menos de um ano, as autoridades locais ainda mantêm as restrições às viagens fora da província de Hubei, onde se situa a cidade de Wuhan. A liberação só ocorrerá quando não houver um caso pendente de tratamento.

O Estado chinês tornou-se o maior fabricante de medicamentos e de máscaras protetoras. Nos últimos dias, a China forneceu cinco milhões de máscaras cirúrgicas a União Europeia, que foram entregues em Liège, na Bélgica, além de 200 mil máscaras especiais e 50 mil kits de teste.

O governo de Pequim sempre aspirou uma posição de destaque na ONU e em outras organizações internacionais, sendo sua intenção projetar sua influência política, econômica e militar, em outras partes do mundo, entrando em concorrência com os Estados Unidos.

A mídia estatal tem aproveitado a crise que infestou os cinco continentes para demonstrar o seu poderio. Tanto assim que o “Diário do Povo”, órgão do Partido Comunista, comemorou recentemente o fato de o número de infecções e mortes, que grassam no exterior, ter se tornado maior do que o suportado pela China desde o advento do coronavírus.

*Advogado, Conselheiro Nato da OAB e Diretor do IAB