Crédito: REUTERS/Adriano Machado

Tilden Santiago*

Aqueles que devem morrer te saúdam, Bolsonaro. Voltamos à barbárie romana, quando o presidente fala de “gripezinha e resfriadozinho” – foca e destaca a morte certa e necessária de idosos e excluídos.

Os bárbaros eram os romanos no poder e não os chamados “bárbaros” pela história universal, perseguidos pelo Império e pelo destino.

O debate que não houve pelas brasileiras e brasileiros, antes das últimas eleições, está acontecendo agora, com o risco de um colapso econômico e social, força a Nação a debater, hoje, por pressão do caos e da barbárie, que começam a dar sinais muito claros de sua iminência.

Antes e sobretudo depois das eleições, vários analistas da economia e da política vêm apontando que o povo brasileiro está sendo levado a escolher entre a “civilização” e a “barbárie”. E esses analistas estavam e estão certos. A meu ver!

A história contemporânea do Brasil e a postura do presidente, uma vez eleito, comprovam o acerto das análises dos cientistas sociais e políticos e dos homens públicos e de negócios que ficaram do lado desses estudiosos da ciência.

Antes, a “facada” foi o pretexto para que ele não fosse ao debate. Agora ele é obrigado a ir, como presidente: não existe motivo para se ausentar da discussão! E a cada dia, fica mais clara a incompetência, a impossibilidade de governar! Governadores já estão pulando fora do barco.

Num primeiro momento, ficou parecendo, da parte do Planalto, uma falta de racionalidade para entender o problema central do País, criado pelo advento do coronavírus e das consequências complexas e sociais, que sucedem em qualquer país, atingido pela pandemia. Incapacidade de entender o problema e muito mais de propor solução, sendo o povo salvo pela ação heroica do ministro da Saúde, Henrique Mandetta, e dos servidores deste setor em toda a Pátria.

Após o pronunciamento oficial da última terça-feira(24/03), em rede nacional de Rádio e TV, ficou claro que existe uma racionalidade, sim, junto com uma falta de sensibilidade, no manejo do poder maior, agora, com os pobres e idosos no portal de uma tragédia social, histórica e fatal.

Debocha dos idosos, especialmente vítimas da exclusão, da miséria, do desemprego e das criminosas aposentadorias, se dizendo atleta vigoroso diante de uma “gripezinha e resfriadozinho”. Cinismo puro! E toma medidas, através do ministro Paulo Guedes, levando em conta que a contabilidade da Nação deve ser salva (qual Nação?) com a morte inevitável e necessária de tantos sem saúde, sem dinheiro, sem caricaturas de aposentadoria ou envelhecendo sem trabalho.

Vera Iaconelli, psicóloga da USP, exprimiu, com inteligência e sensibilidade feminina, algo que o capitão e seus seguidores não conseguem captar, muito menos expressar: “O colapso social decorrente do absoluto desamparo a que está submetida a maior parte da nossa população… é impossível falar em isolamento social e higiene das mãos para quem não tem espaço físico e saneamento básico; é impossível pedir que se aguente a fome até que dias melhores venham. Entre o inevitável e o provável é hora de virar o jogo”.

Segundo ela, estamos diante de tragédias, garantidas umas e bem prováveis outras.
De um lado, estão as forças da situação eleita, incapazes de dar uma guinada, criando um capitalismo “civilizado e civilizador”, em pleno liberalismo democrático! De outro lado, forças de oposição frágeis, distantes do povo, incapazes, por sua vez, de criar algo novo, restaurador e redimir a Nação. Fica e esperança que no bojo da própria crise, da pandemia, esteja oculto o estopim misterioso – acionado pelas estrelas – que liquide com a Velha Política e faça surgir um Brasil novo! Para isso é preciso mudar.

*Jornalista, embaixador e sacerdote anglicano