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Márcia Maria Guimarães *

No período chuvoso é comum ouvir que “a avenida virou um rio”, quando na realidade foram os rios que viraram avenidas durante o processo de ocupação urbana.

As cidades brasileiras cresceram em torno de cursos d’água, quando também surgiram os problemas de drenagem e saneamento.

Belo Horizonte foi uma das primeiras capitais planejadas do Brasil e já na década de 1920 iniciou as canalizações de seus córregos, tais como Acaba Mundo, Leitão, Serra e ribeirão Arrudas, transformados em avenidas.

Com isso, iniciaram-se os problemas de inundações urbanas …

Anos depois da primeira canalização, em 1929, uma enchente arrasou a Capital, mostrando que a retificação das seções de rios e a transformação de seus leitos em canais artificiais não resolviam a situação.

Mesmo assim, a solução encontrada para as cheias do Arrudas foi a ampliação e aprofundamento do canal, acreditando-se que estariam solucionando todos os problemas de drenagem.

Após 30 anos sem que o Arrudas saísse de sua calha, uma chuva intensa ocasionou graves impactos na estrutura de drenagem da cidade no réveillon de 2009, com vítimas fatais.

Teria sido a chuva a única causadora de um pico de vazão capaz de provocar tamanha catástrofe? Por que voltaram a acontecer inundações em Belo Horizonte?

Na realidade, os impactos das cheias urbanas ocorrem devido à combinação de diversos fatores naturais e antrópicos: alta declividade, intensidade, duração, distribuição espaço-temporal e frequência das chuvas, tipos de solo e condições antecedentes de umidade, cobertura vegetal, erosões e assoreamentos, ocupação irregular de planícies e várzeas, disposição irregular de resíduos, obras de engenharia – retificação, canalização, impermeabilização e urbanização.

Com a impermeabilização não há grandes volumes de infiltração. Assim, as águas atingem os canais de drenagem mais rapidamente.

A impermeabilização também contribui para o agravamento do problema ao transferir os alagamentos de montante (rio acima) para jusante (rio abaixo) e aumentar a velocidade da água nas estruturas cimentadas e asfaltadas.

Necessitamos minimizar os impactos decorrentes das chuvas, adotando novas tecnologias de drenagem, como medidas estruturais de reservação e contenção, telhados armazenadores, poços de infiltração, e também com gestão e educação ambiental.

Nossos rios já foram transformados em ruas e avenidas. Precisamos adotar medidas urgentes e simples, como a redução de áreas impermeáveis de nossos quintais, lotes, ruas, bairros e cidade.

*Professora do Centro Universitário Una, Doutora em Ciências em Engenharia Civil/Recursos Hídricos