Crédito: Fernanda Carvalho/Fotos Públicas

Cesar Vanucci *

“(…) daí ser a venda de remédios um negócio de primeira ordem.” (Antônio Callado, “Quarup”)

Apoderado de santo inconformismo e muita indignação, este irrequieto neto de Vó Carlota é posto a par, no noticiário televisivo, pela voz angustiada de uma mãe de família, viúva, com penca de filhos pra sustentar, de chocante história. O custo de medicamento indispensável ao tratamento de pessoa de seu núcleo doméstico, acometida de pertinaz enfermidade, é de “apenas” R$ 16 (dezesseis) mil reais, caixa contendo 30 comprimidos, a serem ingeridos, conforme receita médica, um por dia. O problema – claro está – é de inatingível solução, à primeira vista.

A atordoante informação dá vaza a um aluvião de considerações e questionamentos. A começar por esta óbvia e atormentada indagação: como é que se arranjará alguém, integrante da maciça maioria da população, na hipótese, mais que provável, de não contar com os recursos necessários para aquisição do remédio? O enfermo ficará sem tomar o remédio, arcando com todas as mortificantes consequências da “omissão”, derivada, como visto, de fatores inteiramente alheios à sua vontade? Ou recorrerá ao SUS, na expectativa de que o órgão venha a custear o oneroso tratamento recomendado? Na suposição de que nem o próprio SUS se disponha a atender à crucial demanda, o paciente recorrerá, então, ao Judiciário, pleiteando decisão que obrigue as agências de saúde a proverem-no das drágeas salvadoras, já que ao Poder Público compete, em tese, proteger a saúde dos cidadãos? As perguntas alinhadas enquadram-se num tipo de raciocínio tradicional, de absorção pacífica por parte da coletividade.

Mas não é que a candente questão, se devidamente avaliada em termos de justiça social e humanitarismo, pode e deve comportar enfoque diferenciado? Ensejar, na verdade, uma outra perspectiva, nascida de reflexão e bom-senso,  não  cogitada habitualmente nas acesas discussões travadas a propósito dos reconhecidamente exorbitantes custos dos remédios!

O acesso das populações aos medicamentos é tema que traz desconsolo e frustração. Projeta uma das vertentes penosas do quadro de injustiças e desigualdades sociais prevalecentes no cotidiano. Essas indesejáveis circunstâncias são provocadas por visão mundana fria e utilitarista da vida. O papel, sem dúvida relevante, que à economia cabe desempenhar no contexto civilizatório revela-se distorcido.

A equivocada impressão, largamente disseminada por aí, no jogo das ambições por lucratividade desmesurada, de que a economia é um fim em si mesma, carece ser desfeita. A economia não é fim. É, sim, a exemplo da política, da educação, da tecnologia, meio para se atingir um fim. Fim sempre social. Isso conduz ao reconhecimento de que os indivíduos providos de uma dignidade espiritual, estes sim, precisam ser reconhecidos como os verdadeiros beneficiários das ações produzidas pelo engenho e labor humanos.

É legítimo apreciar-se o episódio acima narrado, do remédio de custo exorbitante, sob um outro ângulo, coerentemente humanístico. Entra aqui mais pergunta: será que, a esta altura da caminhada humana, já não é chegada a hora de se reverter o rumo de um punhado de coisas não harmonizadas com a essência da vida?

Raciocinemos. Se existe, comprovadamente, medicamento em condição de curar gente, o que precisa ser feito, rápido e rasteiro, é liberá-lo para quem dele necessite. Criar fatores eficazes para que benefícios dessa relevância não sejam sonegados a ninguém representa um imperativo social a ser encarado com seriedade.  A sociedade precisa botar a criatividade e a sensibilidade para funcionarem na cata de esquemas que reestruturem procedimentos que já se mostrem inaceitáveis ou incompreensíveis à luz do bom senso. Afigura-se justo e correto, no tocante à descoberta de uma terapia eficaz, que aos pesquisadores e aos laboratórios engajados no processo sejam naturalmente asseguradas compensações generosas. Mas, paralelamente a isso, há que ser assegurado o fornecimento imediato, aos interessados, em todos os lugares, dos bálsamos, drágeas e injeções curativos. Fixar preço inacessível para produtos que salvem vidas é algo que amesquinha a condição humana.

Resumo da história: problema desse tamanhão, de tão doridos efeitos, não pode se transformar, jeito maneira, num mal sem remédio.

* Jornalista, presidente da Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais  (cantonius1@yahoo.com.br)