Crédito Alexandre Guzanshe/Belotur

Cesar Vanucci *

“O Carnaval é a única festa nacional que consola a gente do calor, da queda do mil-réis, da política, dos programas de salvação pública…]” (Ribeiro Couto, 1898-1963, já naquela época)

O Carnaval que eu vi foi ao vivo e em cores. Isso mesmo, pela televisão. Os jornais ofereceram informes complementares para o que, agora, em boa e leal verdade, faço questão de registrar.

Louve-se, antes de tudo mais, a magnífica cobertura jornalística. “Imprecionante!” (deixa com “c” mesmo, no padrão ortográfico adotado por uns tantos adeptos das “teorias revisionistas contemporâneas”). A argúcia dos repórteres não deixou escapar nadica de nada. O extraordinário espetáculo de euforia popular foi retratado de forma estupenda. Quem pôde contemplá-lo, presencialmente ou à distância, tomando por base tudo aquilo que andou pintando no pedaço, do Oiapoque ao Chuí, não tem como fugir a uma inarredável constatação. O Carnaval brasileiro constitui, sem qualquer vislumbre de dúvida, a maior festa popular deste planeta azul sacudido por permanentes sobressaltos.

Sei não. Por isso peço “ajuda aos universitários”, no caso representados por antropólogos, sociólogos e tarimbados foliões, para que confirmem ou discordem da tese. Mas entendo, cá com os meus botões, que a folia momesca vivida nas ruas brasileiras, neste ano da graça de 2020, suplantou nitidamente, em brilho feérico e como projeção de política cultural, esplêndidos carnavais de anos passados. Senti os indivíduos mais soltos, mais desinibidos, mais descontraídos, mais donos de si, no meio das multidões. Encontrei uma prosaica explicação, naturalmente brotada de meus apoucados conhecimentos de psicologia, para o fato. Acossado, cotidianamente, no atacado e no varejo, por incontáveis problemas, atormentado pela paralisia econômica, pelo ritmo pífio de desenvolvimento, pelo desemprego em proporções cruéis, pela danada da corrupção, pela falta de criatividade e iniciativa das lideranças em conceberem, conforme ardentemente almejado pela opinião pública, projetos de crescimento econômico e social a médio e longo prazos, o povão descobriu nas ruas um desaguadouro ordeiro e eficiente de suas maltratadas emoções. Escolheu o Carnaval para catarse, para desafogo.

Usando de muita inventividade, em grupos, blocos, carros alegóricos incríveis, repletos de recados sociais e políticos altamente sugestivos, proclamou, às vezes sutilmente e noutras vezes com bastante ênfase, esperança e crença inabaláveis num Brasil mais justo, mais igual, mais fraterno, mais ecumênico, onde a cultura popular e as diversidades comportamentais sejam olhadas com respeito, como valores que enobrecem o espírito humano. A alegria espontânea despejada nas ruas e praças, ao som da batucada, conectada com sátiras bem-humoradas, envolventes cantorias, esfuziantes alegorias e sonoros refrões de conotação social, econômica e política, traduziu de forma esplêndida – não há como negar – o autêntico, o genuíno sentimento nacional.

Agora, algumas considerações específicas a respeito do Carnaval de rua de Belo Horizonte. Cabe reconhecer, jubilosamente, que ele ganhou, de tempos a esta parte, desvencilhando-se de algum marasmo antigo, notável pujança. Vem deixando à mostra, em traços frisantes, o poder extraordinário da vontade popular quando canalizada em empreitadas de interesse comum. Espelhando as emoções simples da gente do povo, afastando-a por bons momentos de suas desditas, os folguedos carnavalescos serviram, certeiramente, para reaquecer as atividades econômicas, vinculadas ao comércio, ao turismo, à hospedaria. Mas, mais do que isso, as manifestações de rua na capital mineira, denotando esmero no planejamento e organização, vale como encorajador exemplo para empreendimentos outros que exijam conjugação de vontades, concatenação de esforços com vistas a realizações voltadas para causas do bem comum. O Brasil anda bem precisado disso, não é assim?

Vez do leitor. Mensagem de Wenceslau Teixeira Madeira: “Prezado genial e hilariante jornalista Cesar Vanucci, sensacional artigo do grande cronista, este de hoje (18), publicado nesse noticioso “DIÁRIO DO COMÉRCIO”. A travessura do “moleque endiabrado” foi lembrada por alguns colegas, com quem, nesta manhã, que leem também esse jornal, relembramos semelhantes episódios da “inocente” camisinha. Parabéns, meu caro Cesar, se o seu famoso irmão estivesse entre nós (e está) faria um hilariante documentário cinediano, porém, atualizado nos moldes de hoje. Saudades de antanho!”

*  Jornalista ([email protected])