O imbróglio das desestatizações
Crédito: Charles Silva Duarte/Arquivo DC

José Eloy dos Santos Cardoso *

Vender empresas que criam importantes infraestruturas é uma temeridade. Pode resolver uma situação de curto prazo, mas e o futuro, como será? É uma pergunta cuja resposta não convence ninguém. Privatizar a Cemig, Copasa e a Codemig podem dar uma folga financeira no presente, mas o governo, que na atualidade, nada investe em novas infraestruturas como fez Juscelino Kubitschek, quando governador de Minas, pode resolver só um problema de curto prazo. JK criou a Cemig para resolver um problema de infraestrutura em termos de energia elétrica. Foi uma acertada aposta no desenvolvimento mineiro. O binômio “energia e transportes” funcionou muito bem.

Antes que essas vendas possam ser feitas, o governo mineiro pediu à Assembleia Legislativa do Estado de Minas Gerais autorização para receber por antecipação os possíveis recursos futuros das vendas e explorações do nióbio de Araxá, calculada por alguns técnicos em R$ 5 bilhões. Essa proposta do novo governo mineiro já foi contestada pouco tempo atrás pelas procuradoras mineiras Sara Meinberg e Maria Célia Borges, que disseram : “Podemos até receber dinheiro agora, mas e no ano que vem?”.

Vendas de empresas que representam enorme importância no desenvolvimento mineiro não deixa de ser uma operação de risco. A Cemig foi criada pela visão desenvolvimentista de Juscelino Kubitschek quando governou Minas nos anos 50. Ele estava em permanente aborrecimento quando via a antiga Cia. Força e Luz de Minas Gerais não ter energia elétrica suficiente nem para abastecer a capital mineira. Fornecer a energia que a cidade industrial de Contagem estava precisando, nem pensar. Só para demonstrar essa situação vou citar um exemplo deste apagão mineiro: para dar conta de suas obrigações, a Cia. Força e Luz desligava uma parte da cidade para que, com os apagões de algumas regiões, conseguisse abastecer outras. Lembro que trabalhava no 18º andar do edifício Acaiaca e tinha que subir e descer todos esses andares. Não havia energia e os elevadores estavam parados.

Privatizar a Codemig, por sua vez, significa abrir mão de uma obrigação para passar esse trabalho para uma empresa privada que só visa obter lucros. Sem infraestruturas amplas e confiáveis, o governo renuncia indiretamente sua obrigação de criar uma boa parte de desenvolvimento econômico e social em termos de impostos, rendas e empregos. Tudo isso para a iniciativa privada é, na minha opinião, uma equivocada aposta no futuro mineiro.

A Codemig não cumpriu no governo anterior sua obrigação de promover o crescimento e o desenvolvimento, mas renunciar a essas obrigações é uma temeridade. Nos dias de hoje, pouco ou nada vemos de criação de novas estruturas industriais em Minas Gerais. Enquanto  isso, outros estados não titubeiam e tratam, ou de criar novas empresas ou da ampliação das empresas que já estão funcionando. O problema é se analisar e responder a seguinte pergunta: ou Minas Gerais está dormindo no ponto, sendo menos ágil do que os outros estados, ou a culpa é da situação do País e mundial? Qualquer que seja a resposta, temos que solucionar esta importante questão. Jogar as culpas nos antecessores é fácil.

*Economista, professor titular de Macroeconomia da PUC-Minas e jornalista