Crédito: REUTERS/Ueslei Marcelino

Aristoteles Atheniense*

Ao contestar a doença que alcançou a todos os cinco continentes, o presidente Jair Bolsonaro reafirmou a sua índole negacionista, o seu propósito deletério de divulgar fatos que lhe possam trazer notoriedade.

Já houve quem advertisse que Bolsonaro é um subproduto de Trump, que copia mal tudo o que o presidente dos EUA faz ou promete fazer.

A sua versão de que o resultado do primeiro turno das eleições de 2018 fora fraudado, não contou com o menor indício que pudesse levá-lo a sério. Ao rejeitar os dados do Inpe sobre o desmatamento da Amazônia, assim se houve levianamente, opondo-se aos elementos de convicção que demonstravam o contrário.

Trata-se de uma estratégia de manutenção no poder, fazer-se vítima de ameaças permanentes, uma vez que o seu capital político vai se deteriorando.

Conforme assinalou o sociólogo Eduardo Giannetti da Fonseca, assim como uma onda elegeu o militar reformado presidente, inspirada no sentimento antipetista, “essa mesma dinâmica, que é muito violenta de um tempo para cá no Brasil, pode desaguar em uma situação de contestação popular ampla da legitimidade desse status quo. Mas acho que o melhor efeito dessa crise pode ser derrubar essa mascarada, essa chanchada macabra” (“Folha de S. Paulo”, 23/3/20).

Os bolsonaristas, sempre espelhados no ícone norte-americano, passaram a denominar o coronavírus de “vírus chinês”. O deputado Eduardo Bolsonaro responsabilizou a China pela epidemia, provocando a insatisfação do agronegócio brasileiro, que depende em larga escala do mercado daquele país.

Na medida em que o presidente vê minguar a sua popularidade, os seus devotos valem-se dos mais estapafúrdios argumentos para enaltecer o seu governo, visando assegurar a sua reeleição.

O verbo agressivo, não raro insultuoso, tornou-se o seu lema. Na concepção de Bolsonaro, a sua meta consiste em desunir, ainda mais, o Brasil, utilizando-se dos mais vexatórios recursos, como vem fazendo em todas as manhãs em que se acerca de seus acólitos à porta do Palácio da Alvorada.

Não foi surpresa que viesse a se incorporar à multidão de seus sectários em Brasília, colocando em risco não só a sua pessoa, pelo contágio a que ficou exposto, como aos que o aplaudiam, contrariando as recomendações das autoridades sanitárias.

Os seus inusitados pronunciamentos, o desdém com que trata antigos companheiros de caserna, as sucessivas provocações aos órgãos da imprensa, pela gravidade de que se revestem, levaram o articulista Bolívar Lamounier a alertar que a nação conta com governos bifrontes: “A verdade é que temos dois governos. Um no rumo certo, sério e competente, personificado pelos ministros da Economia e da Saúde, principalmente. Outro, populista e irresponsável, personificado pelo presidente Jair Bolsonaro, vez por outra coadjuvado pelos ministros da Educação e das Relações Exteriores” (“O Estado de S. Paulo”, 22/3/2020).

Este quadro enervante importa numa ameaça de retrocesso às conquistas que obtivemos, a partir da redemocratização, e em uma nova forma de autoritarismo interessada em criar uma situação de conflagração de consequências imprevisíveis.
É o que, ainda, poderá ocorrer.

*Advogado, Conselheiro Nato da OAB e Diretor do IAB