O fechamento temporário já provocou o desligamento de 30% dos funcionários dos hotéis | Crédito: Divulgação

A hotelaria mineira acendeu, definitivamente, a luz vermelha em decorrência da crise gerada pela pandemia do Covid-19. De forma geral, a cadeia produtiva do turismo sofre com as restrições de circulação no mundo e o cancelamento dos eventos de todas as naturezas, e a hotelaria talvez seja a face mais visível do problema.

De acordo com dados da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis de Minas Gerais (Abih-MG), até essa quinta-feira (26) na Capital, 11 hotéis suspenderam as atividades e dois pretendem paralisar nos próximos 15 dias. Cerca de 30% dos funcionários do setor já foram desligados. A estimativa é do comprometimento de 3 mil empregos e, após o dia 20 de abril, mais 5 mil tenham o mesmo destino.

Segundo o presidente da Abih-MG, Guilherme Sanson, a expectativa é de que no dia 1º de abril mais 20 empreendimentos finalizem suas atividades.

“Já registramos mais de 70% de cancelamentos de reservas. Apesar do canal de diálogo aberto, ainda não conseguimos viabilizar os pleitos da hotelaria junto aos governos. Insisto que precisamos regulamentar a suspensão do contrato de trabalho e de salários e medidas mais pontuais como isenção do IPTU e ICMS e a redução do ISS, enquanto durar a pandemia do coronavírus”, reforça Sanson.

Na Capital e região metropolitana, já anunciaram o fechamento das atividades os hotéis Fasano, BHB, Quality Pampulha, Classic, BH Plaza, Bristol Merit, ESuites Lagoa dos Ingleses, San Diego Barro Preto, Intercity BH Expo, Boulevard Express e Boulevard Park. A previsão é de que no dia 1º de abril, mais 20 empreendimentos finalizem suas atividades. Alguns hotéis como o OYO Amazonas Palace e o BH Boutique Hostel vão paralisar as atividades pelos próximos 15 dias, também segundo a Abih-MG.

Demissões – Instalado no bairro Gameleira, bem próximo ao Expominas – principal equipamento de feiras e exposições de Belo Horizonte -, na região Oeste, o Hotel Intercity BH Expo fechou as portas sem prazo para retornar às atividades. 93 colaboradores foram demitidos e a desesperança é latente nas palavras do diretor do hotel, Rodrigo Cançado.

“Foram muitas conquistas nestes anos de trabalho árduo, mas, infelizmente, não há nada para se comemorar hoje. Existe um verdadeiro descaso dos governantes em relação aos empreendedores, sejam eles pequenos ou médios. É fundamental tomar providências urgentes para cuidar da saúde econômica. Os governos não sobrevivem sem as empresas, pois são elas que geram a riqueza, por meio dos impostos cobrados. Até agora, nossos governantes não acordaram para a crise que será gerada, criando alternativas reais para a manutenção dos empregos”, desabafa Cançado.

Em Belo Horizonte, depois de uma longa crise de superoferta, que teve início no pós-Copa, em 2014, com dezenas de empreendimentos prontos e sem hóspedes, impactados pela crise econômica, os hotéis começavam a se recuperar. O setor comemorava os resultados de 2019 com bons índices de ocupação média e recuperação do valor médio das tarifas, estacionado nos patamares praticados em 2014, até então.

No acumulado de janeiro a novembro do ano passado, divulgado pelo Fórum de Operadores Hoteleiros do Brasil (FOHB), a cidade apresentou o maior crescimento no valor da diária média, 17,2%, em relação as 13 outras capitais analisadas. A Taxa de Ocupação teve um aumento de 5,9%, e a Receita por Apartamento Disponível (RevPar), 24,1%, atrás, apenas, de Vitória (ES) que apresentou um crescimento de 27,8%.

No interior, estabelecimentos vivem “pesadelo”

Os hotéis e pousadas do interior mineiro também padecem sob a ameaça do novo coronavírus. Histórica e acostumada a receber turistas do mundo inteiro, Diamantina, no Vale do Jequitinhonha, se viu transformada a partir do Decreto 146/2020, que proibiu a entrada e circulação de ônibus, micro-ônibus e vans fretados dentro do município a partir do dia 25 de março.

“Todos esses meios de transporte serão abordados nas barreiras sanitárias e serão impedidos de entrar. Caso precisem passar por Diamantina para chegar a outra cidade, serão acompanhados por escolta até que deixem a cidade”, cita o documento.

Às vésperas do começo da temporada de Vesperatas e da Semana Santa – data mais importante do ano para o turismo da cidade -, as ruas estão desertas e quase todas as pousadas já não recebem mais hóspedes. Instalada no Centro Histórico, a Pousada do Garimpo já reduziu o quadro de funcionários de 30 para sete pessoas e, na tentativa de evitar demissões, antecipou férias e adotou a compensação do banco de horas para deixar seus colaboradores em casa.

De acordo com a diretora da Pousada do Garimpo, Mariana Felício, as medidas incluem a suspensão das atividades a partir do dia 5 de abril, por tempo indeterminado. A expectativa é por ações dos governos federal, estadual e municipal de apoio ao setor.

“Às vezes penso que vou acordar e descobrir que foi tudo um pesadelo. Todas as reservas de abril foram desmarcadas e escolhemos essa data porque temos hóspedes aqui ainda que não podemos simplesmente mandar embora. Temos dois casais norte-americanos que partiriam no dia 4 de abril, mas que não têm como deixar o Brasil agora. Então eles vão ficar como nossos hóspedes particulares”, explica Mariana Felício.

Na tentativa de diminuir o prejuízo com quartos fechados, também foram cortados serviços como TV a cabo e internet. E para combater a pandemia, protocolos de higiene e segurança foram redobrados como a proibição de circulação nas áreas comuns e refeições entregues no quarto, permitindo o fechamento do restaurante. Dos sete colaboradores trabalhando atualmente, dois devem entrar em quarentena nas suas casas e os demais vão passar a morar dentro da pousada com o objetivo de diminuir a circulação pela cidade.

“Os custos fixos de um hotel são muito altos. A gente vai cortando, mas tem uma hora que esbarramos nas taxas mínimas, não tem como zerar. Precisamos que os governos olhem para o nosso setor. Apesar de tudo isso, acredito que as medidas tomadas pela Prefeitura foram acertadas. Se conseguirmos evitar casos na cidade, esse pode ser um ativo na retomada das atividades. Acho que as pessoas vão demorar algum tempo para ter coragem de viajar novamente e, se nos posicionarmos como um destino que não teve problemas com o Covid-19, podemos sair na frente, principalmente porque somos uma cidade que recebe muitos visitantes da terceira idade”, pontua a diretora da Pousada do Garimpo.

Rede – O Grupo Tauá de Hotéis também suspendeu suas atividades. No dia 18 de março foram paralisadas as atividades do Grande Hotel Termas de Araxá, no Alto Paranaíba, e Hotel Alegro, no estado de São Paulo. E, no dia seguinte, foi a vez do Tauá Resort Atibaia (SP) e Tauá Resort Caeté, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH). A previsão é de que as atividades sejam retomadas no dia 24 de abril.

Segundo a diretora Comercial e de Marketing do Grupo Tauá, Lizete Ribeiro, mesmo fechadas as unidades continuam recebendo manutenção. “Apresentamos 95% de alterações de datas e apenas 5% de cancelamentos no período. Nosso maior objetivo, neste momento, é preservar ao máximo as famílias que dependem do Tauá, dessa forma, funcionários em período de experiência foram dispensados e os demais colaboradores seguem em regime de férias ou folga. Manifestamos nosso grande desejo de voltar o mais breve possível e retomar as operações”, destaca Lizete Ribeiro.

Em Pouso Alegre, no Sul de Minas, ainda não existe um decreto que imponha o fechamento das atividades não-essenciais e, por isso, os hotéis continuam abertos, mas não sem muitos problemas. O Hotel Ferraz, por exemplo, que recebe principalmente turistas de negócios e conta com espaço para eventos corporativos, ainda está aberto porque possui 30% de ocupação com mensalistas e demanda alta de reservas por profissionais da saúde e pessoas que estão em quarentena distante do ambiente familiar.

A proprietária Rosana de Jesus Ferraz já baixou as portas da unidade localizada em Cambuí, na mesma região. Para suportar o impacto financeiro da crise, a equipe foi reduzida e 20% dos funcionários estão em casa em férias ou compensando banco de horas.

“O clima é de bastante ansiedade e, por enquanto, estamos conseguindo sobreviver com essa ocupação. Infelizmente, porém, não sei até quando vamos aguentar. Precisamos de uma ajuda rápida para os pequenos empreendimentos”, alerta Rosana Ferraz.

Governo adota medidas para reduzir impacto da crise

As micro e pequenas empresas de turismo de Minas Gerais passam a contar com condições de financiamento facilitadas pelo Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG). O governo do Estado anunciou que as operações do banco com recursos do Fundo Geral do Turismo (Fungetur), destinadas ao capital de giro desses empreendimentos, terão redução nas taxas de juros e ampliação do prazo de carência. O ramo conta com 60 mil negócios em Minas Gerais.

As medidas foram tomadas com o objetivo de amenizar os impactos econômicos e sociais no setor causados pela pandemia do coronavírus. Podem solicitar o crédito as empresas com faturamento anual de até R$ 4,8 milhões e pertencentes a uma das mais de 90 atividades econômicas da cadeia do turismo. Entre elas, estão empresas de hospedagem, bares e restaurantes, transporte e agências de turismo, até negócios de produções artísticas, de teatro e dança, animação de festas, infraestrutura de eventos e aluguel de equipamentos.

Os juros iniciais da linha de crédito caem de 7% ao ano (+ INPC) para 5% ao ano (+ INPC). O prazo de carência dobrou de seis para 12 meses, com pagamento em até 48 meses. O acesso ao crédito deve ser feito diretamente pela plataforma digital do banco ou por meio de um correspondente bancário, que pode ser consultado pelo site.

Equilíbrio financeiro – Para ter acesso aos recursos, as empresas também precisam estar em operação há pelo menos seis meses e inscritas no Cadastro de Prestadores de Serviços Turísticos (Cadastur) – o cadastro pode ser feito gratuita e rapidamente pelo próprio empresário no site do Ministério do Turismo.

Para o secretário adjunto de Cultura e Turismo de Minas Gerais, Bernardo Silviano Brandão, a iniciativa é de grande importância para o setor porque permite manter custos fixos das empresas.

“O foco do Fungetur é, principalmente, o capital de giro e, por isso, as condições anunciadas são bem-vindas. Isso ajuda as empresas a se equilibrarem com pagamentos a funcionários e fornecedores, ou seja, mantê-las funcionando. Além disso, está em andamento uma negociação da Secult e secretarias de outros estados com o governo federal para ampliar as possibilidades de linhas de crédito do setor e atender melhor as micro, pequenas e médias empresas no País todo”, afirma Brandão.

O secretário explica, ainda, que a pasta tem realizado reuniões virtuais constantemente com representantes de entidades como Associação Brasileira de Agências de Viagens em Minas Gerais (Abav-MG), Associação Brasileira da Indústria de Hotéis em Minas Gerais (Abih-MG), Associação Brasileira de Bares e Restaurantes em Minas Gerais (Abrasel-MG), Câmara de Dirigentes Lojistas de Belo Horizonte (CDL-BH), Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de Minas Gerais (Fecomércio-MG), Serviço Brasileiro de Apoio a Micro e Pequenas Empresas em Minas Gerais (Sebrae-MG) e com equipes do Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG). (Da Redação)