Papéis de setores como mineração, siderurgia, aviação e turismo devem ser os mais afetados pelo avanço do coronavírus | Crédito: REUTERS/Paulo Whitaker

O avanço da epidemia do coronavírus pelo mundo tem provocado oscilações nos mercados globais e deixado empresas e investidores receosos em relação aos impactos na economia e ao controle da doença, previsto inicialmente para o primeiro trimestre de 2020.

De acordo com especialistas, o mercado tem reagido de forma negativa ao avanço da doença no mundo e o Ibovespa refletiu o abalo, encerrando, ontem, com queda de 7%. Empresas que mantêm negócios com a China e com países onde é registrado avanço da doença são afetadas diretamente, principalmente, nos setores de mineração, siderurgia, turismo, aviação e transporte.

De acordo com a analista da Terra Investimentos, Sandra Peres, o problema existe e não está isolado na Ásia. A doença vem avançando em todo o globo e aumentando o número de casos de infectados pelo coronavírus na Itália e Alemanha, por exemplo, o que vem ampliando o temor.

“É um sinal de maior preocupação, o risco elevou. Não só pela propagação, mas a contaminação está superando todas as demais epidemias. Não sabemos o quanto isso irá se prolongar, parece que vai além do primeiro trimestre, como previsto inicialmente. A enfermidade não está sendo combatida conforme era esperado, por isso, as bolsas caíram no mundo, de forma bem forte. Como a estimativa de melhora no contágio não está sendo alcançada e estão sendo registrados casos em novos países, como o Brasil,  isso criou um maior temor”.

Conforme Sandra, com o avanço da doença no mundo foi registrada forte baixa no preço das ações de empresas que têm China como principal consumidor ou produtos atrelados ao dólar. As maiores quedas foram verificadas nas empresas de mineração, siderúrgicas, de turismo, aviação e transporte. Também são afetadas, mas de forma indireta, as empresas de tecnologias que ficam sem insumos como bens de consumo da linha branca e celulares, por exemplo.

Ontem, na B3, as ações da Petrobras caíram cerca de 10%, da Gol reduziram 14,3% e da Azul, encolheram 13,3%. O Itaú Unibanco perdeu 4,99%, enquanto Bradesco teve desvalorização de 5,38%, e Santander Brasil caiu 5,73%. A Vale On perdeu 9,54%. A Marfrig e JBS recuaram 9,51%, enquanto BRF Foods ON recuou 6,3%.

O cenário na bolsa de valores é de maior risco, segundo Sandra, mas um problema como esse pode ser sinal de oportunidade para os investidores, desde que tenham uma diversificação maior da carteira e por empresas que não sejam afetadas diretamente pelo coronavírus.

“O momento pode ser uma oportunidade para olhar ativos que não tenham tanta participação nos países mais afetados”, disse Sandra.

Para quem tem ações de empresas que vêm perdendo valor em função da enfermidade, é importante acompanhar as notícias e as divulgações feitas pelas próprias empresas, que irão comunicar possíveis impactos em fato relevante.

“Dependendo do perfil dos investidores, ele pode segurar as ações e correr o risco, não seria aconselhável sair pela queda grande, mas é um risco. Se ainda estiver com ganhos, pode vender e fazer caixa para comprar ações com preços mais baixos. Tudo depende do perfil. Hoje, o mercado tem risco mais elevado que do início do ano”.

Subestimado – Para o analista-chefe Necton, Glauco Legat, os papéis mais afetados são os das empresas exportadoras, como a Vale e a Petrobras por exemplo. Ele explica que o mercado, como um todo, estava subestimando o poder de propagação do coronavírus e também os potenciais efeitos na economia.

“São vários os efeitos mitigadores que ajudaram a adiar o movimento mais crítico do mercado para agora. Entre eles a concentração específica na China e, também, a letalidade, a quarentena e o isolamento de cidades com grandes focos ajudaram a ideia de minimizar o risco. Agora, vemos que é a nível global, inclusive confirmamos o primeiro caso no Brasil. Isso pode agravar as consequências e afetar de forma mais grave a economia”.

De acordo com Legat, é importante acompanhar o mercado e as consequências. “Para quem tem investimentos de longo prazo, vender agora, que os preços caíram, teoricamente, tem que assumir um cenário ainda de piora. Para quem tem visão de maior prazo, pode vender agora para ter repique mais forte na frente, a espera de cenário mais forte. Iniciamos o ciclo no Brasil agora, e precisamos esperar para ver como vai evoluir”.

Ainda segundo Legat, investir na bolsa sempre será eventos de risco, hoje é o coronavírus, daqui a seis meses pode ser outro fator que eleva os riscos. “De maneira geral, com o cenário de hoje, não venderia, esperaria sinais mais graves da economia”.