Tragédia de Brumadinho prejudica produtores de hortaliças da região
Os consumidores desconfiam de contaminação das hortaliças de Brumadinho - Crédito: Divulgação

Pouco mais de um ano após o rompimento da barragem da Vale na mina Córrego do Feijão, em Brumadinho, produtores de hortaliças ainda enfrentam problemas com a produção e comercialização dos itens.

Além da poeira provocada pelo trânsito de caminhões, o que queima as hortaliças, o mercado consumidor está receoso em relação à contaminação dos produtos.

O produtor rural Rafael Campos Ferreira, logo após o rompimento, perdeu os 16 hectares plantados com 40 tipos de hortaliças. O espaço ficou isolado e sem energia elétrica, o que comprometeu a irrigação e causou as perdas.  Após a liberação do acesso, o produtor replantou toda a área, porém, a poeira provocada pelos caminhões queimou as folhas e a lavoura foi novamente perdida.

“Os prejuízos são enormes, estamos sem condições financeiras para replantar. Além disso, ainda não recebemos as indenizações, o que dificulta ainda mais”, explicou.

Além das perdas causadas pela poeira, Campos explica que os produtores da região também têm enfrentado problemas com o mercado consumidor, que está deixando de comprar os produtos de Brumadinho com receio de contaminação.

“Nós não utilizamos a água do rio Paraopeba para irrigação, que é feita com a água do córrego Casa Branca, que não foi afetado pelo rompimento da barragem. Existe um preconceito no mercado de que os produtos estão contaminados, o que não é verdade e vem trazendo prejuízos para os produtores de Brumadinho”, afirma.

A expectativa de Campos é de que o Programa SuperAção Brumadinho, desenvolvido pelo Serviço Nacional de Aprendizado Rural (Senar), venha contribuir para a retomada da produção.

“Recebemos a primeira visita e vamos fazer a análise de solo para termos condições de colher novamente. A situação é muito difícil, porque não temos recursos para iniciar o plantio novamente. Hoje, sobrevivo com a venda da produção de outra horta que tenho em Sarzedo, mas muitos produtores não têm essa alternativa”, explica.

De acordo com o analista técnico do Senar Minas e coordenador do Programa SuperAção Brumadinho, Harrison Belico Coelho, existe, de fato, um preconceito relacionado aos produtos oriundos de Brumadinho e também problemas provocados pela poeira. Por isso, os produtores estão desmotivados em relação à ampliação e investimento nas áreas, já que podem perder a produção ou não conseguir comercializar os itens, o que gera prejuízos financeiros.

“É sabido que existe um preconceito estabelecido em relação à contaminação. Também há uma queima das hortaliças devido à poeira. Em relação à poeira, os produtores podem buscar por outras culturas que sejam mais resistentes e que possam amenizar o problema”, diz Coelho.

Alternativas – Já em relação à comercialização dos itens, o ideal é que os produtores trabalhem com a rastreabilidade, realizem análises em laboratórios e busquem por certificações de qualidade e sanidade da produção.

“O preconceito em relação aos produtos de Brumadinho é um problema grave que afeta os produtos no final do ciclo, quando ele vai consolidar o fruto do trabalho”, explica Coelho.

Ainda segundo o coordenador do Programa SuperAção Brumadinho, as visitas do projeto que vai atender os produtores rurais que foram impactados pelo rompimento da barragem da Vale foram iniciadas em 6 de janeiro.

Com o projeto, cerca de 480 produtores terão acesso à assistência técnica e gerencial por dois anos. O trabalho será desenvolvido pelo Sistema Faemg e pelo Sistema CNA, através do Senar. Ao todo, serão investidos R$ 1,5 milhão, recurso que será disponibilizado pelo Senar nacional e estadual.

As principais atividades desenvolvidas na região são horticultura, bovinocultura de leite, piscicultura, fruticultura e apicultura. A ideia é prestar a assistência técnica para melhorar a qualidade, a produtividade, a renda, a gestão e a comercialização dos itens.