Crédito: Nick Oxford/ Reuters

Cesar Vanucci *

“Esse produto é o sangue da terra.”(…), é a dominação.” (Monteiro Lobato, referindo-se ao petróleo)

Incidente terrorista de forte impacto, que estaria, em circunstâncias normais, fadado a monopolizar por largo espaço de tempo as manchetes internacionais, vem sendo maliciosa e clamorosamente ocultado pela mídia. Análise serena da história conduz, infalivelmente, à evidência de que o procedimento detectado atende a escabrosas conveniências geopolítico-econômicas.

Seguinte: em dezembro passado, na base naval e aérea de Pensacola, Flórida, Estados Unidos, o militar saudita Mohammed al-Shammrani, 21 anos de idade, integrante de um grupo de estagiários que compreendia outras 20 pessoas, oriundos da Arábia Saudita, executou um desvairado atentado dentro da unidade em que atuava. Matou três pessoas e feriu outras oito, tendo sido abatido no revide das forças de segurança. O noticiário dedicado ao trágico acontecimento foi desnorteantemente parcimonioso. Foi relegado praticamente a canto de página, embora as proporções assumidas pelo fato tenham sido de molde a gerar, potencialmente, consequências seriíssimas nas relações dos países envolvidos. Mas o que pesou mesmo, no duro da batatolina, nos desdobramentos havidos, foram poderosíssimos e embuçados interesses políticos e econômicos, astutamente empenhados, como já sucedeu noutras ocasiões, em esconder o malfeito debaixo do tapete…

Pelas informações disponibilizadas, o fanático fardado saudita agiu sob influência de crença religiosa fundamentalista. A mesma dominante na linha do pensamento jihadista que orienta as sinistras operações do Isis, Al-Qaeda e outras falanges.

Tendo por base a escassa divulgação produzida em torno da séria ocorrência na base aeronaval, ficou-se sabendo, ainda, que os governantes estadunidenses e do reino árabe negociaram o retorno a Riad dos demais integrantes do grupo de estagiários da força aérea saudita. No acerto, cuidou-se de evitar a utilização do termo “expulsão”. Estipulou-se que os militares “estão sendo chamados de volta” pelas autoridades de seu país, com o retorno do grupo previsto para dentro em breve.

Tudo a propósito do incandescente e momentoso assunto – uma ostensiva ação terrorista em solo americano, perpetrada dentro de uma base militar – vem sendo tratado com “excesso de tato e discrição”… Em dialeto roceiro, “mode que” a não causar “melindres”, “desagrados” na realeza saudita, “leais e dedicados” aliados na defesa dos “postulados democráticos”… Não há como olvidar que as tensões causadas pelos perturbadores confrontos – envolvendo, inclusive, perigosamente, ensaios bélicos – entre o arrogante Trump e os raivosos aiatolás iranianos, contribuíram, de certo modo, para distanciar do foco central das atenções o lance terrorista narrado.

E, se mal pergunte, qual a razão do silêncio de tumba etrusca que recobre o incidente? Por que cargas d’água um absurdo dessa proporção é abafado pela grande mídia universal? Sendo reconhecidamente um reino feudal despótico, ancorado em regras jurídicas medievais, a Arábia Saudita recebe das superpotências, mormente dos Estados Unidos da América, tratamento “a pão de ló”, como era de costume dizer-se em tempos de antigamente. E tudo isso, visto está, por conta de suas descomunais e estratégicas jazidas petrolíferas. Pouco ou nada importam os reiterados desatinos diuturnamente praticados no território saudita, com a sistemática e escandalosa violação dos direitos fundamentais. Pouco importa que ali ocorram decapitações em praça pública de seres humanos “condenados” por opção sexual classificada de pecaminosa na visão distorcida de muçulmanos extremados. Fontes qualificadas denunciam que práticas escravagistas prevalecem em muitas porções do país, mas isso também não choca nem comove setores da liderança mundial que enfeixam poderes decisórios nas mãos.

Algum tempo atrás, renomado jornalista saudita, exilado nos Estados Unidos, prestando serviços profissionais à imprensa da grande nação do norte, entrou pela porta da frente no consulado da Arábia em Istambul, Turquia. Foi assassinado e esquartejado lá mesmo, ao que se assegura por ordem de algum potentado do reino. Os insuficientes protestos erguidos logo se esvaíram. Da parte de nenhuma das lideranças das grandes potências ninguém ouviu o mais leve murmúrio de censura ao hediondo ato.

O jornalista e cineasta estadunidense Michael Moore, perseverante crítico da ação jihadista sediada na Arábia Saudita, não se cansa de denunciar que naquele país é que se acham alojadas as fontes financeiras que subsidiam os movimentos terroristas e a central ideológica responsável pela arregimentação das hordas fanáticas do Isis, Al-Qaeda e outros grupamentos. Enfatiza dois lances emblemáticos: os pilotos que arremessaram aviões contra as torres gêmeas e o Pentágono faziam parte, todos eles, dos quadros da força aérea saudita. Quando da tragédia de 11 de setembro, a comunidade jihadista, predominante no país, compareceu às mesquitas, maciçamente, expressando regozijo “pelos feitos” dos fanáticos terroristas.

O que conta mesmo, de verdade, neste tétrico enredo das arábias, é o petróleo. Parceiros incondicionais, magnatas de diferentes nacionalidades e senhores feudais colocam-se acima do bem e do mal, acima das normas que regem a convivência comunitária, acima de quaisquer valores, sejam éticos, morais, cívicos ou sociais, convictos da supremacia absoluta do “deus petróleo” sobre todas as coisas nascidas do engenho humano no acidentado percurso civilizatório. E o resto que se dane…

* Jornalista, presidente da Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais  ([email protected])