Transportes: houve retração na demanda e as estimativas para o restante do ano são pessimistas | Crédito: Alisson J. Silva

O setor de transporte rodoviário de cargas está empenhado em manter os serviços para o enfrentamento ao novo coronavírus.

De acordo com o Sindicato das Empresas de Transportes de Carga e Logística do Estado de Minas Gerais (Setcemg), o transporte de cargas continua em funcionamento, porém, enfrenta problemas com os decretos dos governos municipais e estadual que proibiram o funcionamento de diversos estabelecimentos, entre eles os de alimentação e de oficinas mecânicas, o que tem prejudicado a manutenção dos veículos em serviços de emergência e a alimentação dos motoristas.

Em relação à demanda pelos serviços de transporte de cargas em Minas Gerais houve retração e as estimativas para o restante do ano são pessimistas.

De acordo com presidente Setcemg e vice-presidente da Federação das Empresas de Transporte de Carga do Estado de Minas Gerais (Fetcemg), Gladstone Lobato, ainda não foi possível calcular a redução da demanda, porém, o impacto tende a ser significativo.

“Com o fechamento do comércio, dos bares, restaurantes, de várias indústrias e a programação de parada das montadoras de veículos, por exemplo, a demanda pelo transporte de cargas já está muito menor e a tendência é, se o cenário permanecer como o de agora, de mais redução. A estimativa é de que a economia só vá ‘minguando’, impactando de forma negativa no consumo e a consequência será muito pior. Não foi possível calcular a queda, mas o impacto será muito grande e vemos um futuro ruim pela frente”.

Ainda conforme o representante da Setcemg, o setor está em pleno funcionamento para que não ocorra o desabastecimento. No momento, as cargas mais transportadas têm sido de alimentos, produtos químicos, de tratamento para água, de saúde e farmacêuticos. As empresas também estão de prontidão para atender a demanda do Estado caso tenha necessidade de transportar produtos específicos, como o álcool em gel, por exemplo.

Rede de apoio – Porém, é grande o desafio em relação à precariedade de infraestrutura nas rodovias. Os caminhoneiros estão com dificuldades de encontrar estabelecimentos, principalmente de alimentação e manutenção emergencial dos caminhões.

Isso vem acontecendo devido aos decretos municipais e do governo de Minas Gerais, que determinaram o fechamento de muitos estabelecimentos para o controle do coronavírus. Ainda conforme Lobato, foi pedido ao governo do Estado a liberação desses serviços nas rodovias para os motoristas do setor de transporte de cargas.

“O principal problema que estamos enfrentando é a falta de apoio nas estradas para os motoristas, que não estão encontrando lugares para almoçar, jantar, nem serviços de borracheiros, mecânicos. Isso tem dificultado a operação. O governo precisa liberar este atendimento para os caminhoneiros, senão, não tem como manter o abastecimento. O setor é essencial e está trabalhando para garantir o abastecimento da população. Algumas empresas já estão entregando kits de alimentação para os funcionários se alimentarem nos veículos”.

Em coletiva a imprensa, o governador de Minas Gerais, Romeu Zema, enfatizou a importância do setor de cargas e disse que os prestadores de serviços do setor devem funcionar, o que é essencial para a manutenção do abastecimento.

Apelo – “O transporte de carga não pode sofrer nenhuma restrição. Muitos caminhões estão ficando parados porque precisam de uma borracharia ou de uma peça e o comércio está todo fechado. Precisamos lembrar que nós recomendamos que apenas o comércio não essencial feche as portas. Aquele que atende prestadores de serviço, como caminhoneiros, precisa funcionar. Se pararmos o fluxo de caminhões, pode faltar alimento, medicamentos e até água tratada. Os caminhoneiros precisam ser muito valorizados neste momento, porque estão mantendo a sociedade abastecida”, enfatizou Zema.

Ainda segundo Lobato, as entidades do setor de transporte de cargas têm feito um amplo trabalho de conscientização dos motoristas em relação à higienização e cuidados necessários para que não ocorra a contaminação pelo coronavírus.

“O motorista fica sozinho dentro do caminhão, então o contato é mínimo. Mas, orientamos que quando ele chegar aos lugares é necessário evitar o contato com outras pessoas e aglomerações. Como eles ficam 80% do tempo sozinhos, também é importante o cuidado com a família, caso a mesma não esteja em isolamento. Temos recebido apoio dos setores de supermercados, siderurgia, fabricantes de cal, entre outros, que estão mantendo restrições para controlar a contaminação, não permitindo que os motoristas se aglomerem, adotando a entrega de nota fiscal individual, entre outras medidas”, explicou Lobato.

Atividade pede suspensão temporária de pedágio

Brasília – Transportadores de cargas devem entregar ao governo federal uma pauta de demandas da categoria em que pede, entre outras medidas, a suspensão temporária da cobrança de pedágio, afirmou o presidente da Associação Nacional dos Transportadores de Cargas (Anut), Luís Baldez.

O pedido será feito aos ministros da Economia, Paulo Guedes; da Casa Civil, Braga Netto; e da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas.

Na carta, a entidade quer que haja a suspensão de fiscalizações nas rodovias durante a vigência do decreto de calamidade pública em razão da pandemia de coronavírus – medida que pode ajudar no escoamento das cargas no País, segundo a entidade. A Anut também defende o adiamento da cobrança de impostos que incidem no transporte no período.
Baldez ainda vai cobrar que as autoridades atuem para que haja uma espécie de “porta de saída rápida” para o período de confinamento por que passam várias regiões brasileiras.

“Esses próximos 15 dias vão ser cruciais. Após esse período, temos de sentar e buscar uma saída para todo esse lockout para que aos poucos retomemos as atividades. Precisamos ter uma curva de saída para a economia se não haverá um desastre econômico”, disse.

Para o representante da Anut, posteriormente à eventual adoção dessas medidas de exceção haveria uma espécie de acerto de contas dos transportadores com as autoridades, no qual seriam acordados prazos para o pagamento do que ficou pendente.

Para Baldez, governos de São Paulo e do Rio de Janeiro – que têm tomado medidas mais enérgicas que o governo federal no enfrentamento da pandemia – estão assumindo postura correta. Mas ele destacou que as medidas não podem ser prolongadas por vários meses sob risco de colapso de empresas.

O representante Anut afirmou que medidas como fechamento de fronteiras não podem ser tomadas unilateralmente pelas unidades da federação.

Responsável pela entidade que representa um terço da movimentação de cargas no País, o presidente da Anut não vê risco por ora de desabastecimento da economia, mas defende retomada rápida da atividade econômica para não comprometer o País.

Baldez citou a situação dos transportadores autônomos como preocupante. Segundo ele, com a queda da atividade econômica, empresas de transporte usam apenas suas próprias frotas de caminhões e deixam de contratar autônomos. O efeito, porém, pode ser minimizado em parte pela provável supersafra de grãos do País, que deve exigir trabalho dos caminhoneiros autônomos.

“Primeiro a sofrer é o autônomo. A empresa transportadora tem como se defender. Ainda bem que estamos na safra do País, que vai ser recorde e os autônomos estão trabalhando normal. A partir de abril maio, começa a curva descendente da colheita. Imagina se (a quarentena) se prolonga até setembro o problema que vai ser”, projetou.

Baldez admite que as restrições podem levar a um maior tempo para transporte dos produtos. Contudo, disse, os valores dos fretes são os mesmos porque há contratos firmados com as transportadoras. Ele destacou ainda que, com a demanda caindo, não há espaço para renegociação dos valores contratados.

O presidente da Anut disse que, no período da quarentena, fábricas têm dado todo o apoio aos caminhoneiros, disponibilizando refeições, banheiros e itens de higiene pessoal. “Nas estradas, nas principais rotas de escoamento, os postos de gasolina e restaurantes estão dando também este apoio”, disse. (Reuters)