Segundo Sanson (Abih-MG), saída do Marcelo Matte já estava sendo esperada pelo trade | Crédito: Divulgação

Há pouco mais de um ano no cargo, Marcelo Matte deixou a Secretaria de Estado de Cultura de Turismo (Secult) nessa terça-feira (24). A exoneração, publicada no Diário Oficial do Estado (DOE), deixa o setor desassistido em meio a uma das mais graves crises enfrentadas pelo turismo mineiro e também de proporções mundiais.

Em uma nota protocolar, o governo de Minas Gerais se limitou a informar laconicamente: “Marcelo Matte deixou hoje o cargo de secretário de Cultura e Turismo de Minas Gerais. A exoneração foi publicada no Diário Oficial e ocorre a pedido do ex-secretário, que alegou motivos pessoais. O governador Romeu Zema agradece os serviços prestados por Matte em prol do desenvolvimento cultural e das potencialidades turísticas do Estado. No momento oportuno, será anunciado o substituto para o cargo”.

Hotéis – Saber qual será esse momento oportuno e tentar, ao máximo, antecipá-lo, é a esperança da cadeia produtiva do turismo em Minas. O presidente da Associação Brasileira da Indústria Hoteleira de Minas Gerais (Abih-MG), Guilherme Sanson, afirma que negociações que já estavam em andamento entre o trade e a Secretaria não podem ser paralisadas sob pena de um agravamento sem precedentes na crise enfrentada pelo setor em virtude da pandemia de Covid-19.

“Essa saída do Marcelo Matte já estava sendo esperada. Pedimos que vários assuntos que estávamos pleiteando desde a unificação da Cultura com o Turismo e vinham sendo trabalhados não sejam paralisados. O turismo e a cultura pedem – ainda mais neste momento que estamos vivendo – que o substituto seja decidido rapidamente porque ficamos nos sentindo isolados, sem voz no governo. Apesar de termos um contato direto com o corpo técnico, os pleitos da hotelaria não foram alcançados. Muitos hotéis já estão fechando e o desemprego crescendo com essa demora na tomada de decisão em vários pontos. Precisamos da suspensão do contrato de trabalho, da isenção do IPTU enquanto durar a pandemia, de redução de ICMS, precisamos dessas ações para dar fôlego ao empresariado e segurança para os empregados e isso está demorando e impactando diretamente a saúde das empresas e das pessoas”, explica Sanson.

Para o presidente do Belo Horizonte Convention & Visitors Bureau (BHC&VB), Jair Aguiar, também é importante dar continuidade ao trabalho já desenvolvido. “Agradecemos ao ex-secretário Marcelo Matte pelo empenho durante esse período e desejamos sucesso a ele! Esperamos ainda que o trabalho iniciado por ele não seja perdido e que possamos ter alguém a altura para nos ajudar, principalmente nesse momento tão difícil vivido pelo setor”, afirma Aguiar.

Agências de viagem – Já o presidente da Associação Brasileira das Agências de Viagem de Minas Gerais (Abav-MG), Alexandre Brandão, considera que a manutenção da equipe técnica atual e a não paralisação das ações como suficientes neste primeiro momento.

“Penso que essa escolha de funcionário de primeiro escalão é prerrogativa do governador e que para nós o mais importante é o corpo técnico. Com a Marina (Marina Pacheco Simião, subsecretária de Estado de Turismo) e o Bernardo (Bernardo Silviano Brandão Vianna, secretário de Estado Adjunto de Cultura e Turismo) permanecendo poderemos dar continuidade ao bom trabalho desenvolvido por eles. Existe um movimento para indicarmos alguém do setor, mas não acho que esse seja o momento, o importante é que as coisas continuem funcionando. Temos um gabinete de crise que reúne a secretaria e os presidentes das principais entidades do turismo levando as nossas demandas diretamente para o gabinete de crise do governador a cada dois dias”, pondera Brandão.

Circuitos turísticos – De acordo com a diretora-presidente da Federação dos Circuitos Turísticos do Estado de Minas Gerais (Fecitur), Degislaine da Silva Souza, o desafio enfrentado pelo ex-secretário, ao assumir uma secretaria com duas subpastas tão complexas – cultura e turismo – é muito grande e importante para o desenvolvimento econômico e social da população de Minas Gerais. O próximo gestor deverá encarar ainda mais dificuldades.

“Além da complexidade das subpastas sabemos que o desafio maior foi em relação a falta de recursos que dispõe tal secretaria. Sabemos que ele fez muitas alterações no modo de ação da secretaria e com isso conseguiu uma melhor organização técnica da mesma, e também trabalhou muito em cima da conscientização de que o turismo é um dos maiores geradores de emprego e renda que temos e Minas Gerais. Para a Fecitur, que trabalha junto aos municípios, o novo secretário terá um desafio ainda maior, pois neste momento atípico e caótico que estamos vivendo as incertezas são muitas e no segmento do turismo temos milhares de empresários e trabalhadores que precisarão como nunca do apoio da secretaria”, avalia Degislaine Souza.

Linha do tempo – Nascido em Porto Alegre (RS), Matte se dedicou durante 45 ao setor privado, atuando em alguns dos mais importantes grupos de comunicação do País, e estava há dois anos aposentado antes de assumir o posto no governo estadual.
Na época, o executivo já previa as dificuldades de atuar com um orçamento bastante reduzido.

“Esse é um enorme desafio para o Estado, que está com o caixa zerado. A situação orçamentária é grave e preocupante. A boa notícia é que encontrei uma equipe muito qualificada de animada. Apesar dos cortes no orçamento, que na Cultura alcançou 50% do valor total e, no Turismo, 78%, podemos fazer um bom trabalho. Fui convidado insistentemente e saí da minha aposentadoria porque acredito nisso”, avaliou na sua primeira coletiva concedida em dezembro de 2018.

A posse do executivo aconteceu depois de uma novela que extinguiu a Secretaria de Turismo (Setur), depois a anexou a outras pastas como a de Trabalho e Desenvolvimento Social (Sedese) e, depois, a Secretaria Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (Sedectes) até que se unisse à Secretaria de Cultura, transformando a SEC em Secult, não sem antes muita discussão na Assembleia Legislativa do Estado (ALMG).