Crédito: REUTERS/Rahel Patrasso

Cesar Vanucci*

“O momento exige grandeza (…) #PagaLogo.” (Ministro do STF Gilmar Mendes, recomendando à burocracia que faça chegar logo ao destino a ajuda pecuniária definida pelos Poderes da República)

• Sugestivos dados comparativos, ao alcance do raciocínio mais simples das pessoas, permitem uma constatação importante e decisiva. A humanidade carece urgentemente de refazer seus conceitos de vida. Em arsenais bélicos de colossais proporções, implantados pelo mundo inteiro, em gigantescas frotas de aeronaves e naves espalhadas pelos ares e mares, existem mísseis e outros formidandos artefatos de destruição em suficiente quantidade para aniquilar – mais de uma vez, se tal “proeza” se mostrasse possível – todo vestígio de vida na superfície desta nossa “terra plana”, alucinatoriamente concebida nas teorias fundamentalistas quer grassam por aí. Por outro lado, nos hospitais, clínicas e postos de atendimento da saúde pública, operados em tudo quanto é canto do mundo, mesmo nos grandes e sofisticados centros urbanos do assim chamado “primeiro mundo”, há comprovadamente ameaçadora escassez de instrumentos básicos e essenciais. Como vem sendo revelado através da crise humanitária em curso, produtos indispensáveis, extremamente necessários – máscaras de tecido, por exemplo -, destinados a proteção de profissionais da saúde e pacientes alojados em enfermarias e unidades de terapia intensiva, andam rareando, em instantes cruciais, nas ações voltadas para o nobre propósito de salvar vidas preciosas. Dá procês?

• Fixemo-nos agora, nessa chocante história do vídeo de conteúdo falso referente a Ceasa. Ela foi concebida, visto está, com o propósito de semear confusão à mancheia. Temos diante dos olhos uma medida exata da paranoia e desfaçatez de uma horda de fanáticos que permanece solta na praça, à margem até aqui de enquadramento policial. Trata-se de pessoal empenhado, não é de hoje, na utilização das redes sociais para malfeitorias, muitas vezes com indisfarçáveis intuitos de proselitismo político barato. O nosso presidente Jair Bolsonaro, conquanto haja se desculpado depois pelo ato falho cometido, procedeu de forma reprovável ao dar guarida, em sua postagem pessoal, à mentirosa informação. A propagação da “fake”, com virótica velocidade, foi estimulada, como sói acontecer, pela irresponsabilidade de uma legião de internautas. Sem qualquer cuidado de apurar devidamente a fonte da informação, eles passaram adiante, inescrupulosamente, o absurdo veiculado. Tudo leva a crer que seu desejo, no duro da batatolina, é ver “o circo pegar fogo”, como era de hábito dizer-se em tempos de antanho …

• A burocracia governamental parece ver-se em palpos de aranha na execução das providenciais medidas de socorro emergencial, aos menos favorecidos, sugeridas pela área econômica e, consensualmente, numa demonstração de bom-senso, prontamente acatadas pelo Parlamento e pela Justiça. Vem atrasando as ações executivas recomendadas para fazer os benefícios chegarem rapidamente ao seu destino. Tal atitude atrai, compreensivelmente, uma saraivada de críticas. Eventuais entraves legais, do ponto de vista orçamentário, já foram desfeitos em liminar do ministro Alexandre Moraes, bem como em autorização do Congresso, conforme didaticamente esclarecido por especialistas em Direito Público. O ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes foi um dos que se pronunciaram a respeito da momentosa questão. E, pelo menos desta feita, setores da opinião pública que, amiúde, comentam criticamente as posições assumidas pelo magistrado, se viram na contingência de concordar com sua manifestação. Suas as palavras vindas abaixo: “Não adianta tentar colocar a culpa na Constituição Federal: as suas salvaguardas fiscais não são obstáculo, mas ferramenta de superação desta crise. O momento exige grandeza para se buscar soluções de uma Administração Pública integrada e livre do sectarismo. #PagaLogo.”

• Pelo menos num país da comunidade europeia, a Hungria, de tradição autoritária bem anterior ao período da já também superada tirania bolchevista, o novo coronavírus não atacou apenas a saúde das pessoas e ameaçou contundentemente a atividade econômica. Alvejou, ainda, o incipiente regime democrático vigente. O premier Viktor Orban obteve de um Parlamento submisso ao seu estilo caudilhista uma lei de emergência terrível. Ficou provido do “direito” de administrar o país com base em decretos, por tempo indeterminado. Os “poderes especiais” permitiram-lhe colocar o Parlamento em quarentena, não por causa do vírus… Foi mais longe: suspendeu eleições, baixou atos que acenam com prisão, por até 8 anos, a quem ouse desrespeitar as regras de confinamento social estipuladas. A mesma penalidade pode ser atribuída a quem, a critério governamental, seja flagrado, mesmo em bate-papos triviais, a divulgar informações consideradas “incorretas” e que atentem contra a “ordem constituída”. Paralelamente a essas excrecências jurídicas, o dirigente húngaro estabeleceu rigorosa censura dos meios de comunicação, “tava na cara” … Seu furor despótico chocou a comunidade europeia. A tal ponto que governos da região resolveram colocar a Hungria numa “quarentena política”, até que a violentação dos preceitos democráticos seja dissipada. Pelo menos outros três países, um no Oriente Médio, Israel, e os demais na Ásia, Tailândia e Filipinas, resolveram optar, também, por decisões restritivas caracterizadamente antidemocráticas. O governo de Bangkok passou a censurar os meios midiáticos. O primeiro-ministro Bibi Netanyahu, a seu turno, numa deliberação que levantou justificadas e severas críticas, ordenou o fechamento das Cortes judiciais. O gesto foi visto, por analistas políticos, como uma tentativa marota de adiar seu comparecimento ao Tribunal onde responde por acusações de corrupção. Já o presidente das Filipinas Rodrigo Duterte, “célebre” por seu estilo autocrático, que já tem feito vítimas incontáveis entre adversários políticos e cidadãos que não rezam por sua cartilha, após haver determinado toque de recolher à população, expediu ordens às forças de segurança para que abatam a tiros eventuais infratores.

* Jornalista ([email protected])