Credito: Arquivo/Bloch.

ROGÉRIO FARIA TAVARES*

Cursando jornalismo na PUC Minas, tive a oportunidade de conhecer, por dentro, uma das melhores redações da Belo Horizonte dos anos noventa: a da TV Manchete. Fundada por Adolpho Bloch, ucraniano naturalizado brasileiro, até então um bem sucedido editor de revistas de ampla circulação nacional (“Manchete”, “Fatos e fotos”, etc), a emissora entrou no ar em 1983, cercada de enormes expectativas. Explorando concessões que antes haviam sido da TV Tupi e, no caso de São Paulo, da TV Excelsior, a nova estação estreou com programação de sofisticado padrão e custo alto, procurando oferecer ao telespectador uma alternativa de qualidade ao que era apresentado pela TV Globo, líder de audiência em todo o País.

O empenho da numerosa equipe contratada não se restringiu aos telejornais, que contavam com ancoras como Iris Lettieri e Roberto Maia e comentaristas do quilate de Vilas Boas Correa e Murilo Melo Filho. Arnaldo Niskier mediava o ótimo “Debate em Manchete”. Entre as atrações para as crianças, estava a comandada por Xuxa, que começava ali sua carreira como animadora. No campo da dramaturgia, foram importantes as novelas “Pantanal” (foto), “Amazônia”, “Dona Beja”e “Xica da Silva”, as duas últimas inspiradas na obra de Agripa Vasconcelos, antigo integrante da Academia Mineira de Letras. Incapaz de vencer terrível crise econômica, o sonho de Bloch se desfaria em 1999.

Em Minas, a sede da tevê ficava em movimentado edifício comercial à avenida Afonso Pena, em frente ao Palácio das Artes. Com o apoio generoso do afável Lúcio Portela, que dirigia o Grupo Bloch no Estado, a excelente Cássia Lage comandava um grupo de jornalistas de primeira linha, apaixonados pelo ofício, conscientes de sua responsabilidade. Lembro-me, com carinho e gratidão, de Marina Rievers, Isabel Ballstaedt, Maria Silvéria da Fonseca (a inesquecível Xuxu), Carlos Henrique de Freitas, o Carlinhos, Eneida da Costa (combativa presidente do Sindicato dos Jornalistas), Aluízio Oliveira (hoje funcionário do Senado Federal) e Marco Aurélio Franco, entre tantos outros. O competente e elegante J.D. Vital apresentava um afiado programa semanal de entrevistas.

Cheguei em 94, como estagiário, junto com Alessandra Mello, Márcio Serelle, Juliana Felicíssimo e Daniela Serra. Nossa função era reforçar o time encarregado de cobrir as eleições para o governo do Estado, quando Eduardo Azeredo derrotou Hélio Costa. Intenso, o aprendizado daqueles meses. Foi a primeira vez que saí à rua como repórter. O entrevistado era o cantor e compositor Flávio Venturini, que acabava de lançar o disco “Noites com sol”, hoje considerado um importante marco de sua carreira.

Também aprendi a trabalhar em equipe, naquela época composta por quatro profissionais: o repórter, o cinegrafista, o operador de áudio e o motorista. Amparado na experiência de repórteres cinematográficos do nível de Arthur Lobato, enfrentei as externas e andei, como nunca, pelas ruas da cidade. Vi Beagá por outros ângulos. Visitei lugares a que jamais teria ido. Ampliei meus horizontes. E acabei tomando gosto pela apuração das notícias, a produção de entrevistas e, sobretudo, pela arte de fazer perguntas. Afinal, o jornalista existe para fazer perguntas. Sobretudo as mais incômodas.

*Jornalista e presidente da Academia Mineira de Letras