O inesquecível Canal 23
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ROGÉRIO FARIA TAVARES*

Se escrevi na semana passada sobre os tempos em que estagiei na Rede Manchete, hoje relembro meu período no Canal 23, fundado no começo de 1997 por Elos Noli, Alberico Souza Cruz e Lauro Diniz, um dos mestres que mais influíram na minha formação. Intuitivo e espontâneo, franco como poucos, Lauro tinha, ao mesmo tempo, o pleno domínio da arte jornalística, um coração gigante e uma enorme disponibilidade para ensinar as novas gerações. Incansável, deu o sangue pelo canal, que ele e seus sócios acabaram vendendo para outro grupo, poucos anos depois de sua inauguração.

Mas vamos à história. Totalmente dedicada ao jornalismo, a emissora era sintonizada pelo cabo, ainda uma novidade naquela época. A tevê aberta reinava, soberana, dando ao telespectador brasileiro poucas opções de informação e entretenimento. Afinal, não passavam de quatro ou cinco as escolhas possíveis. Os serviços pagos de áudio visual eram, naturalmente, para uma minoria. O streaming não era sequer imaginado. Mesmo assim – e por devotar a sua programação inteiramente à cobertura das notícias de Belo Horizonte – a estação da avenida Olegário Maciel conseguia uma boa repercussão. Muita gente na Capital comentava atrações como o “Arrudas Connection”, de que participavam Odin Andrade, Angelo Oswaldo e José Alberto Nemer, ou o “Programão”, apresentado por Celso Martinelli, em que pontificavam Cibele Ruas, Gladston Mamede, Feiz Bahmed e Eduarda Cota.

A seleção dos jovens profissionais que se incumbiriam da estreia do canal ficou a cargo da experiente Soraia Vasconcelos, idealizadora do belo “Terra de Minas”, da Rede Globo. Competente e sensível, Soraia foi fundamental para compor o time que se formava. Entre os aprovados, jornalistas que até hoje emprestam o seu talento e a sua seriedade à causa da imprensa: Inácia Soares, Daniella Zupo, Juliana Perdigão, Juanita Gontijo, Gabriela Speziali, Juliana Alvim, Alexia Ballesteros, Claudinei Moreira, Rodrigo Cabral, Ulisses Magnus, Bianca Lage… Outros excelentes colegas se juntariam a nós posteriormente, como foram os casos de Larissa Carvalho, Luciana Guerra, Ana Cristina Pimenta, Roberta Moreira, Bel Brant, Patrícia Porto, Leonardo Avelino e Mara Pinheiro.

Tive o privilégio e a alegria de passar por quase todas as etapas da formação da notícia. Atuei como apurador, produtor, repórter e apresentador. Na reportagem, participei de momentos históricos marcantes, como a crise com a Polícia Militar, durante o governo Azeredo; a gigantesca operação que retirou os camelôs das ruas da cidade, sobretudo da avenida Paraná; a posse de Itamar Franco no governo de Minas e a decretação da moratória do estado junto à administração central. Por cerca de dois anos, coube a mim ancorar o “Jogo Duro”, sempre entrevistando alguma personalidade. Por ele passaram alguns tipos notáveis, como Oscar Dias Correa, Lúcia Flecha de Lima, Elza Soares, Roberto Drummond… Ajudado pela generosidade de colegas como Luciane Amaral, Carlos Henrique de Freitas, Roberto Braga e Tom Zé, fui aprendendo a trabalhar. Tomando gosto pelo meu ofício, passei a respirar o jornalismo vinte e quatro horas por dia. Com o tempo, foi ficando cada vez mais clara, para mim, a importância da profissão que abracei. Não há sociedade democrática sem uma imprensa forte e destemida, que zele pelas liberdades públicas e pelo Estado de Direito e que ajude o cidadão a se informar corretamente. É o que todos queremos, não tenho dúvida.

* Jornalista e Presidente da Academia Mineira de Letras