Segundo dados do IBGE, o Brasil tem, aproximadamente, 12,8 milhões de desempregados -- FOTO: ALFREDO MATOS / ASCOM SUSIPE

A inserção do trabalhador brasileiro no mercado de trabalho não tem sido uma tarefa fácil, especialmente diante de um contingente de 12,8 milhões de desempregados, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em agosto.

Para os grupos considerados socialmente vulneráveis, como jovens em situação de risco e egressos do sistema prisional, essa realidade é ainda mais cruel.

Diante desse quadro e cientes de que não é possível ter uma empresa saudável dentro de uma sociedade adoecida, empresários, organizações não-governamentais e poder público têm se mobilizado para criar condições de qualificação profissional e colocação no mercado.

O Sistema Divina Providência, através da Cidade dos Meninos, é um deles. O programa de capacitação de jovens busca oportunidades de primeiro emprego junto às empresas da Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH) para seus egressos.

Segundo a coordenadora da Central de Empregos, Raquel Leandro, empresas como Tambasa e Super Nosso já participam da iniciativa. “A Central de Empregos entra quando os meninos terminam o ensino médio. Nos preocupamos com a identidade corporativa dos alunos para que ele entenda a empresa em que vai trabalhar. A nossa maior dificuldade é a abertura do empregador. Mostramos que os nossos jovens, além da qualificação técnica, têm uma formação comportamental para o ambiente corporativo e que ele pode ser trabalhado de acordo com a cultura da empresa”, explica Raquel Leandro.

A meta da Central de Empregos é disponibilizar 100 vagas por mês e inserir 500 jovens no prazo de um ano. O Programa Jovem Aprendiz é regulamentado pela Lei 10.097/00 e o Decreto-Lei 5598/2005. De acordo com a legislação, toda empresa de médio e grande portes tem como compromisso social a contratação de jovens.

Já o Programa de Socioaprendizagem no Sistema Prisional realizado em parceria pela organização Rede Cidadã, a construtora MRV e a GPA – empresa responsável pela construção e administração do Complexo Penitenciário Público-Privado de Ribeirão das Neves, na RMBH – busca colocar jovens que estão no regime semiaberto e egressos do sistema prisional no mercado de trabalho.

De acordo com a coordenadora de Marketing da Rede Cidadã, Luza Marinho, a iniciativa partiu da MRV que precisava cumprir a cota de jovens aprendizes e se interessou em atender à obrigação através do projeto.

“A situação de uma pessoa que passou pela cadeia é sempre muito delicada. Poucas empresas estão dispostas a dar uma oportunidade e quando a MRV nos procurou vimos uma grande oportunidade. Entendemos que para inserir essas pessoas precisamos cuidar não apenas da capacitação técnica, mas também da humana, promovendo o autoconhecimento. Essa é uma mudança cultural que leva tempo”, destaca Luza Marinho.

A mudança de cultura dentro da empresa é um dos desafios de quem se propõe a receber essas pessoas. Enfrentar olhares desconfiados e vencer a descrença da equipe é um papel dos líderes. A diretora da Montreal Informática não se arrepende da opção que fez.

“Quando decidi trazer o primeiro jovem vindo do Programa de Socioaprendizagem fui até meus gerentes para saber quem se disporia a recebê-lo. Fiquei muito satisfeita quando todos aceitaram. Hoje, temos dois participantes. Os gestores de ambos dão retornos muito positivos falando do engajamento de proatividade deles. Mas não é um processo fácil. Só existe ressocialização se nós estivermos abertos, se existir uma empresa que abra a porta na outra ponta”, afirma Lúcia Alvarenga.

Resgate – Na primeira ponta está a GPA. É lá que o processo começa, ao selecionar, mediante critérios internos, os jovens que vão participar do programa. Segundo a gerente de Atendimento da GPA, Nathalia Fernandes, cerca de 50% da população prisional brasileira tem até 29 anos e desse total 30% tem até 24 anos, idade máxima para os programas de aprendizagem. Com uma escolaridade mínima e sem passagem formal pelo mercado de trabalho, eles têm chances mínimas de conseguir um emprego e muitas chances de reincidir no crime. Estudos mostram que a taxa de reincidência varia de 40% a 70%.

“Logo que soubemos do programa fomos atrás. Fizemos uma primeira turma dos cursos de técnico em segurança do trabalho e técnico em informática, com 80 pessoas beneficiadas. Esse programa, entretanto, não foi aprovado dentro das regras da Lei da Aprendizagem. Então consideramos essa a primeira edição. São 32 beneficiados, sendo três do sistema semiaberto e os demais do fechado. Só três do semiaberto já estão empregados. Aqui dentro a receptividade foi muito grande e esse é um trabalho diferente, com muita preocupação no que se refere às questões emocionais. Os egressos costumam ter uma autoestima muito baixa, não se consideram capazes nem merecedores de uma oportunidade”, analisa Nathalia Fernandes.

A analista de Desenvolvimento Humano da MRV, Clara Pires Bicalho, destaca que a parceria com a Rede Cidadã para colocação de jovens no mercado é antiga e a iniciativa em relação aos jovens em privação de liberdade tem a ver com o propósito da construtora: “construir sonhos que transformam o mundo”.

“Incluir quer dizer trazer para dentro quem está fora de um determinado grupo. Os egressos enfrentam uma série de barreiras como o preconceito, a desinformação e a falta de oportunidades no mercado de trabalho. Essa oportunidade é uma chance de mudarmos a vida dessa pessoa, impedindo que ela volte para o crime. Devemos perceber que é mais barato para a sociedade integrar essas pessoas do que pagar a conta da violência. Dentro da empresa podemos verificar que quando passamos esses valores para os nossos colaboradores e trabalhamos com equipes mais diversas e inclusivas ganhamos equipes mais engajadas e livres de preconceitos”, completa Clara Bicalho.