Crédito: REUTERS/Adriano Machado

Brasília – O presidente Jair Bolsonaro decidiu antecipar ontem o retorno a Brasília depois de um período de descanso no litoral de São Paulo. O plano inicial era que ele voltasse para a capital federal apenas na manhã de hoje.

O retorno antecipado, de acordo com aliados do presidente, deve-se ao mau tempo e ao cancelamento da visita que ele faria ontem ao porto de Santos. Em live na última quinta-feira (9), Bolsonaro disse que visitaria a região portuária e poderia anunciar novidades.

O cancelamento ocorre após o presidente ter protagonizado uma disputa pública com o governador de São Paulo, João Doria. Na transmissão online, ele acusou o tucano de estar “completamente desinformado” sobre a privatização do porto de Santos.

Doria havia dito que os portos de Santos e de São Sebastião serão desestatizados neste ano. O Ministério da Infraestrutura já havia negado a informação. A pasta ressaltou que as privatizações seguem previstas para 2021 e não há como fazer as concessões antes desse prazo.

Desde que Doria sinalizou interesse em disputar o Palácio do Planalto em 2022, o presidente, que avalia disputar uma reeleição, tem feito críticas públicas ao tucano. “O senhor (Doria) está completamente desinformado. O ministro desmentiu essa informação e, afinal de contas, com todo respeito, quem pode falar pelos ministros sou eu”, disse Bolsonaro. “Quando o senhor for presidente da República, daí é fácil.”

O porto de Santos é administrado pela Santos Port Authority (SPA), novo nome da Companhia Docas do Estado de São Paulo (Codesp), que é vinculada ao Ministério da Infraestrutura.

Diferentemente de outros portos do Brasil como Paranaguá (PR), Rio Grande (RS) e São Sebastião (SP), que são controlados pelo estado, o porto de Santos é administrado pelo governo federal em quase todas as suas atividades. O governo estadual é responsável pelos acessos rodoviários -na prática, possui menos influência.

A SPA está entre as nove estatais que foram incluídas no programa de privatizações do governo Bolsonaro. Na área de portos, além da Codesp e da Codesa (Companha das Docas do Espírito Santo), o governo estuda as privatizações dos portos de São Sebastião e Suape (PE).

O Ministério da Infraestrutura planeja realizar a privatização do porto de Santos até 2022. Para isso, uma das iniciativas será a desestatização da autoridade portuária.

Bolsonaro foi aguardado desde o início da manhã desta segunda na sede da Santos Port Authority por um grupo de trabalhadores portuários.

Embora a visita não constasse em sua agenda oficial, o entorno foi preparado desde a madrugada para recebê-lo para um encontro fechado, sem a presença da imprensa.

O principal sindicato da categoria convocou trabalhadores de Santos, São Vicente, Guarujá e Cubatão para uma manifestação pacífica com o objetivo de entregar reivindicações trabalhistas ao presidente.

“Para nós era importante essa vinda do presidente, temos reivindicações dos trabalhadores, principalmente com relação ao trabalho avulso. Ele disse na campanha que daria atenção a essa categoria. Queríamos essa garantia, via documento”, disse à reportagem o presidente do Sindicato dos Estivadores de Santos, Rodnei Oliveira da Silva.

Durante a campanha, Bolsonaro gravou um vídeo elogiando e prometendo ajuda, “uma mão amiga”, para o mercado de trabalho portuário.

O presidenteco permaneceu recluso no Forte dos Andradas, em Guarujá, durante todo o domingo (12), sem agendas ou saída para contatos com a população e apoiadores. Por três vezes, mobilizou a sua segurança para saídas, mas desistiu devido a chuva. Não recebeu autoridades ou políticos.

A deputada estadual Adriana Borgo (Pros-SP) tentou, sem sucesso, entrar na fortificação para entregar uma carta escrita de integrantes do movimento Coração Cinza Bandeirante, formado por ex-policiais militares que sofreram processos administrativos e pleiteiam julgamento pela Justiça comum.

O presidente permaneceu afastado da imprensa durante todo o período em que esteve no litoral paulista.

No evento de inauguração do novo pronto-socorro da Santa Casa de Misericórdia de Santos, na última sexta-feira (10), Bolsonaro discursou por cerca de dez minutos, conheceu as novas instalações do hospital, mas deixou o local sem falar com jornalistas.

No evento, ele esteve ao lado de desafetos políticos do governador Doria: os prefeitos de Santos, Paulo Alexandre Barbosa (PSDB), e de São Vicente, Pedro Gouvêa (MDB), além do presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf (MDB).

Principal alvo dos elogios de Bolsonaro, Skaf foi adversário de Doria na campanha eleitoral de 2018 e trocaram seguidas farpas públicas.

Durante a eleição em 2018, Paulo Alexandre dirigiu críticas a Doria, a quem acusou de ter traído Geraldo Alckmin (PSDB), enquanto Gouvêa, cunhado do ex-governador Márcio França (PSB), travou um embate público em torno das obras de recuperação da ponte dos Barreiros, principal ligação entre a área insular e continental de São Vicente, interditada desde 30 de novembro. (Folhapress)