Além da disputa entre Rússia e Arábia Saudita, mercado externo é afetado pelo coronavírus | Crédito: REUTERS/Essam Al-Sudani

Nova York – Os preços do petróleo sofreram nessa segunda-feira (9) a maior queda diária desde a Guerra do Golfo de 1991, após Arábia Saudita e Rússia iniciarem uma disputa de preços que ameaça sobrecarregar os mercados globais da commodity com mais oferta.

Um recuo de quase 25% nas cotações do petróleo desencadeou pânico nos principais índices acionários de Wall Street, em um momento em que a rápida disseminação do coronavírus pelo mundo também amplifica temores de uma recessão global.

Dow Jones, S&P 500 e Nasdaq caíram cerca de 7%. No Brasil, o Ibovespa despencou mais de 12%.

Tanto Arábia Saudita quanto Rússia disseram durante o fim de semana que vão elevar as produções de petróleo, depois de um acordo de três anos entre os países e outros importantes produtores da commodity, que agia para limitar a oferta, entrar em colapso na sexta-feira (6).

Os contratos futuros do petróleo Brent fecharam em queda de US$ 10,91, ou 24,1%, a US$ 34,36 por barril. O vencimento chegou a cair 31% no início da sessão, quando bateu mínima de US$ 31,02, menor nível desde 12 de fevereiro de 2016.

Já o petróleo dos Estados Unidos cedeu US$ 10,15, ou 24,6%, e terminou o dia cotado a US$ 31,13 por barril. Mais cedo, o WTI chegou a perder 33%, tocando a marca de US$ 27,34, também mínima desde 12 de fevereiro de 2016.

A segunda-feira marcou o maior declínio percentual para ambos os valores de referência desde 17 de janeiro de 1991, quando as cotações do petróleo recuaram em um terço devido à Guerra do Golfo.

Os volumes negociados para os contratos de primeiro mês de ambos os tipos de petróleo bateram máximas recordes.

Ações de empresas de energia também recuaram com força, e produtores norte-americanos de shale (petróleo não convencional) passaram a cortar gastos, antecipando-se à queda nas receitas. A Exxon Mobil recuou 12%, enquanto a Chevron teve tombo de 15%. No Brasil, a Petrobras despencou 30%.

“O prognóstico para o mercado do petróleo é ainda mais terrível que o de novembro de 2014, quando tivemos pela última vez o início de uma guerra de preços dessa proporção, uma vez que agora ela ocorre ao lado de um colapso significativo na demanda por petróleo devido ao coronavírus”, disse o Goldman Sachs em relatório.

Demanda – A demanda global por petróleo deve recuar em 2020, no que seria a primeira contração em mais de uma década, em meio aos impactos do coronavírus sobre a atividade econômica do mundo, informou a Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês) ontem.

A IEA disse que a demanda por petróleo deve somar 99,9 milhões de barris por dia (bpd) em 2020, o que representa redução de quase 1 milhão de bpd frente à previsão anterior para o ano, sinalizando uma contração de 90 mil bpd. Seria a primeira queda na demanda desde 2009.

A IEA, com sede em Paris, disse em relatório com projeções de médio prazo que em um cenário extremo, no qual governos não conseguiriam conter a disseminação do coronavírus, o consumo poderia cair em até 730 mil bpd.

O vírus, que já impactou mais de 100 mil pessoas, levou a uma queda acentuada na produção industrial, principalmente na China e outras economias da Ásia, assim como na Itália.

O diretor executivo da IEA, Fatih Birol, pediu que produtores tenham “comportamento responsável” em meio à crise do coronavírus, após o colapso de um acordo para restrição de oferta entre Opep, Rússia e outros produtores na semana passada, que levou à derrocada dos preços.

“Em um momento desses, de incerteza e potencial vulnerabilidade da economia global… jogar roleta russa com os mercados de petróleo pode ter consequências graves”, disse Birol a jornalistas.

Birol disse que preços baixos podem colocar importantes países produtores, como Iraque, Angola e Nigéria, sob “enormes” dificuldades financeiras, alimentando pressões sociais.
A IEA disse ainda que, após o choque de demanda em 2020, o consumo de petróleo provavelmente voltaria forte e subiria 2,1 milhões de bpd em 2021. (Reuters)

MME conclui estudos sobre variações de preços

Miami – O Ministério de Minas e Energia concluiu estudos que visam à criação de instrumentos a serem aplicados em momentos de variações abruptas dos preços do barril do petróleo, como forma de reduzir impactos no mercado brasileiro, afirmou ontem o ministro Bento Albuquerque.

Tais estudos, que tiveram início há cerca de seis meses, deverão ser apresentados pela pasta de Minas e Energia ao presidente Jair Bolsonaro assim que Albuquerque voltar ao Brasil, afirmou o ministro, em entrevista a jornalistas em Miami.

Albuquerque ponderou, no entanto, que não há medidas emergenciais a serem tomadas neste momento pelo governo diante da forte queda nos preços do petróleo ontem, que resultou no maior recuo da história dos papéis da Petrobras, de mais de 25%.

“Nós, no Brasil, estamos estudando instrumentos que poderão ser aplicados em caso de variações abruptas do preço do barril de petróleo. Tanto pra cima quanto pra baixo”, afirmou Albuquerque sobre o mercado, que também tem sido pressionado pelos temores de menor demanda em função do coronavírus.

“Esses estudos foram concluídos, eu estou conversando com o ministro Paulo Guedes. (O ministério da) Economia é que está à frente da questão tributária, e vamos apresentar isso para o presidente agora quando eu voltar para o Brasil.”

O ministro não detalhou quais as propostas que serão apresentadas ao presidente, mas adiantou que “não tem nada de aumento da Cide (Contribuições de Intervenção no Domínio Econômico)”.

“A Cide é um dos componentes desses instrumentos que podem ser utilizados, como PIS/Cofins… Isso tudo é exercício que pode ser refletido, mas não tem nenhuma ação agora que vai ser tomada pelo governo”, afirmou.

Em janeiro, Albuquerque afirmou que o governo estudava utilizar recursos dos royalties e participações especiais do petróleo para compensar eventuais impactos de altas da commodity nos preços dos derivados no mercado doméstico, diante de uma escalada de tensões no Oriente Médio, que havia elevado os preços do petróleo.

De acordo com o ministro, o presidente Jair Bolsonaro está tranquilo e reafirmou que não haverá interferências na política de preços da Petrobras.

“No momento não há nenhuma medida emergencial que será adotada pelo Executivo. Como eu falei, nós estamos monitorando, acompanhamento e no momento oportuno serão adotadas as medidas e os instrumentos que se fizerem necessários.” (Reuters)

Petrobras está monitorando o mercado

Rio – A Petrobras está monitorando o mercado de petróleo, que abriu com queda de mais de 30% ontem, no maior recuo diário das cotações desde 1991, mas considera que é cedo para falar de impactos sobre suas operações, de acordo com comunicado divulgado nessa segunda-feira (9).

“A Petrobras avalia que ainda é prematuro fazer projeções sobre eventuais impactos estruturais no mercado de óleo e gás associados à recente e abrupta variação nos preços do petróleo, dado que ainda não está claro nem a intensidade ou mesmo a persistência do choque nos preços”, disse a estatal em nota, após questionamento da Reuters.

A forte retração do petróleo no mercado internacional, no entanto, levará à redução de preços dos combustíveis nas refinarias da Petrobras, disse uma fonte da empresa com conhecimento do assunto, sem detalhar.

“Claro que teremos redução de preços (da gasolina e do diesel)”, disse a fonte, que falou sob a condição de anonimato.

Impactos do corte de preços sobre a estatal foram minimizados pela fonte, que disse que a Petrobras fez “muito dever de casa” e está “resiliente” para um cenário de preços menores.
A Petrobras afirmou, por meio de comunicado, “segue com seu plano estratégico que prepara a companhia para atuar com resiliência em cenários de preços baixos”. (Reuters)