Dólar à vista encerrou ontem a R$ 4,4868, após atingir a máxima de R$ 4,5076 ao longo do dia | Crédito: Philimon Bulowayo/Reuters

São Paulo – O dólar começou março cravando a oitava máxima recorde nominal consecutiva ante a moeda brasileira, aproximando-se de R$ 4,49, depois de uma tentativa ontem de ajuste de baixa frustrada pela constante incerteza sobre os efeitos econômicos do coronavírus em todo o mundo.

O real teve um desempenho mais fraco que a vasta maioria de seus pares emergentes, que se valorizavam em dia de alguma trégua nos mercados globais conforme investidores se apegavam a sinalizações de estímulos por parte de bancos centrais.

A performance aquém da moeda brasileira segue ditada por menor atratividade do lado dos juros e incertezas sobre o crescimento econômico.

As projeções de juros na B3 tiveram forte queda nessa segunda-feira (2), com as taxas de curto prazo chegando a cair 13 pontos-base, indicando maiores apostas de cortes da Selic, em um contexto de economia ainda debilitada.

Os sucessivos cortes de juros dos últimos vários meses reduziram a diferença entre as taxas pagas pelos títulos brasileiros e os papéis norte-americanos – considerados os mais seguros do mundo. Assim, o investidor estrangeiro tem tido menos estímulo para aplicar na renda fixa local, o que tem prejudicado o fluxo cambial e jogado contra melhora na oferta de dólar no País.

A falta de ímpeto da economia também turva o cenário para os fluxos. A pesquisa Focus do Banco Central mostrou ontem queda na projeção de crescimento do PIB neste ano, dois dias antes de o IBGE divulgar os números oficiais do quarto trimestre de 2019.

Ao longo do dia, o dólar oscilou entre alta de 0,59% (a R$ 4,5076) e queda de 0,21%, a R$ 4,4715. Os mercados externos pioraram o sinal no fim da tarde depois de autoridades de saúde dos Estados Unidos revisarem o total de casos confirmados de coronavírus no estado de Washington para 18. No Brasil, o número de casos suspeitos saltou para 433, de 207 na véspera.

Mesmo em alta, a moeda terminou mais próxima da mínima do que da máxima intradiária. O dólar à vista fechou a segunda-feira em alta de 0,13%, a R$ 4,4868 na venda, nova máxima histórica nominal para um encerramento. Foi o nono pregão consecutivo de valorização do dólar, igualando a sequência vista em dezembro de 2005. Na B3, o dólar futuro rondava estabilidade, a R$ 4,4885.

O nível mais fraco do real, porém, começa a atrair algumas recomendações positivas para a moeda. O Bank of America, por exemplo, aconselha compra de real em detrimento do peso mexicano, devido a “preços extremos, extremo posicionamento” e expectativa de que o delta de crescimento ainda favoreça o Brasil na esteira das reformas econômicas.

“Os riscos a essa operação seriam a agenda de reformas fracassando em avançar mais no Brasil, uma queda acentuada nos preços globais das commodities ou uma divergência ainda maior de política monetária entre os dois países”, disseram estrategistas do BofA em nota.

B3 – O principal índice da B3 voltou a subir ontem, acompanhando a recuperação de ativos de risco no exterior, em meio a apostas de que bancos centrais tomarão medidas para amenizar o efeito do coronavírus na economia.

Índice de referência do mercado acionário brasileiro, o Ibovespa subiu 2,36%, a 106.625,41 pontos, tendo alcançado 107.220,02 pontos na máxima da sessão. O volume financeiro totalizou R$ 32,5 bilhões.

De acordo com o presidente da BGC Liquidez, Ermínio Lucci, a melhora nos mercados refletiu expectativas de que os bancos centrais do G7 vão, em algum momento, anunciar medidas de suporte às economias desenvolvidas, principalmente as autoridades monetárias dos Estados Unidos e União Europeia. (Reuters)

Mês deve ser de volatilidade e cautela na B3

São Paulo – Estrategistas de renda variável trabalham com um cenário de manutenção de volatilidade e cautela no mercado acionário brasileiro em março, em meio ao surto do novo coronavírus e potenciais reflexos no ritmo da atividade econômica mundial, mas não descartam oportunidades de compra.

O Ibovespa acumulou queda de mais de 8% na última semana de fevereiro, o que resultou em desempenho negativo similar no mês, que terminou a 104.171,57 pontos, refletindo principalmente a rápida disseminação do vírus para outros países além da China, incluindo Estados Unidos e Brasil.

A equipe do BTG Pactual destacou que as fortes vendas nos últimos pregões deixaram o principal índice de ações da B3 em um patamar atrativo e que vê espaço para compras “cautelosas”, mas ponderou que ainda é difícil de prever um piso neste momento, conforme relatório a clientes.

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) afirmou ontem que o surto de coronavírus está afundando a economia mundial em sua pior recessão desde a crise financeira global e pediu a governos e bancos centrais que lutem para evitar uma queda ainda mais profunda.

Preocupações com a desaceleração chinesa em razão do surto do novo coronavírus e seu respectivo efeito dominó nas demais economias baseiam uma visão negativa para a bolsa brasileira no curto prazo pela equipe da BB Investimentos, que trabalha também com um aumento da volatilidade.

De acordo com relatório distribuído a clientes, eles ponderam, contudo, que eventuais oportunidades de compra podem surgir “à medida em que notícias positivas em relação ao declínio de novos casos e/ou desenvolvimento de vacina comecem a tomar conta dos mercados”.

O vírus emergiu na cidade chinesa de Wuhan, no final do ano passado, e, desde então, já infectou mais de 86.500 pessoas, a maioria na China. Ele já se espalhou para 53 países, somando mais de 6.500 casos e mais de 100 mortes. No total, a doença já matou quase 3 mil pessoas.

“Nosso desafio agora é encarar a nova realidade e não ter medo dos desafios que o mercado poderá nos proporcionar este ano”, afirmou a equipe da Genial Investimentos, avaliando que o coronavírus terá efeito negativo importante no crescimento mundial, mas que ainda é cedo para refazer projeções. (Reuters)