A função de ministérios
Crédito: Ricardo Moraes/Reuters

A Esplanada dos Ministérios em Brasília agrupa, salvo engano, 17 prédios, destinados a igual número de ministérios, os que existiam na época em que a cidade foi concebida. Em apenas setenta anos, pouco tempo na perspectiva histórica, hoje a Esplanada tem espaço para pouco mais de um terço dos ministérios existentes. E, salvo talvez umas poucas exceções, não foram necessidades objetivas, de serviço, que fizeram o número inicial ser multiplicado por três, até mais em alguns momentos.

Aconteceu que, com a redemocratização e as necessidades de acomodação e de recomposição política que então surgiram, os ministérios se transformaram em símbolo de poder, quase sempre negociados em troca de apoio político mais explícito,  e assim foram proliferando, entra governo sai governo. Nessa toada ganhou força também a ilusão de que a criação de um determinado ministério seria o mesmo que garantia de apoio ao setor atendido, numa reação de causa e efeito que, pelo menos nessas bandas, absolutamente não existe. Alguém se lembra do finado Ministério da Pesca, de cujas realizações não se têm notícias, da mesma forma que não se pode afirmar que um único peixe tenha sido pescado por sua conta?

O presidente Bolsonaro, quando em campanha, prometeu acabar com essa farra, chegando a anunciar que, se eleito, voltaria aos 12 ministérios da época da fundação de Brasília. Eleito, não deve ter demorado muito a perceber que prometera o impossível e teve que se contentar com um corte bem mais modesto, de cujos efeitos práticos não se tem notícias. Agora, passado pouco mais de um ano de sua posse, volta ao assunto, só que na direção contrária. Falou em recriar o Ministério da Cultura, ideia que parece abandonada, surgindo em seu lugar a possibilidade de criação de um Ministério da Segurança Pública.

Não discutiremos aqui e agora quanto custaria essa empreitada. Preferimos enxergar – e apontar – a questão sob um outro ângulo. Trata-se da ilusão que foi criada no País de que diante de qualquer problema, inclusive a suposta falta de prestígio ou atenção de determinado setor, tudo se resolve com a criação de um ministério. Uma tola ilusão, da qual não faltariam exemplos como a do já mencionado Ministério da Pesca. O que importa mesmo é a intencionalidade, seguida de projetos e políticas específicas, além da disponibilidade de recursos. Títulos pomposos servem, no máximo, à vaidade e a adesão política, esta quase sempre ilusória, forçoso reconhecer.

Se o governo, qualquer governo, entende como importante dar atenção a determinado setor, o que vale mesmo é a crença e a intencionalidade. O resto é adulação ou quase suborno explicito, tendo como resultado uma conta a pagar que já estourou.