Crédito: Renan Silva/Flickr

Nossa memória que é quase sempre curta, ou seletiva, mas cabe perguntar a quem ainda se lembra que, há apenas quatro anos, ou menos, se afirmava aos quatro ventos que o Brasil estava quebrado, carregando um déficit fiscal que não poderia ser sustentado por muito tempo mais. Falava-se em ajuste “duro”, prometia-se que desta vez o setor público finalmente “cortaria na própria carne”. É forçoso reconhecer que alguma coisa foi feita, mas não devemos nos iludir quanto ao fato de que, verdadeiramente, tenham acontecido mudanças verdadeiramente transformadoras. Ou, mais propriamente, saneadoras.

Como regra, aquilo que realmente importa e remete à afirmação de que o Estado brasileiro foi sequestrado por corporações, permanece, com mudanças que sequer mereceriam ser classificadas como saneadoras. Resultado objetivo, continuam existindo motivos para preocupação. Muita preocupação. Como afinal escapar à observação que passou pela Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro, a terra do ex-governador Sérgio Cabral, preso e condenado a mais de 200 anos, projeto estabelecendo pagamento vitalício, hoje de aproximadamente R$ 15 mil por mês, a todo vereador que passe pela Casa?

Estamos falando do Rio de Janeiro e nos dirigimos a leitores esclarecidos e não nos parece necessário maiores considerações a respeito desse inqualificável absurdo. Mas, para construir nosso raciocínio, apontar um outro, que também vem do Rio de Janeiro. Estamos falando da inauguração, semana passada, de um novo prédio, anexo da Assembleia Legislativa local, a um custo declarado de R$ 156 milhões. Não há como, definitivamente, encontrar argumentos em defesa da empreitada quando é sabido que no Estado o sistema de saúde está em situação de colapso, o mesmo acontecendo em outras áreas de atendimento essencial à população.

São exemplos que produzem indignação na medida em que ilustram até que ponto ainda nos encontramos distanciados de padrões mínimos de respeito aos cidadãos, ao contribuinte e aos recursos que vêm de seu bolso. Triste conclusão que nos remete de volta à abertura desse comentário, mostrando que velhos hábitos continuam persistentes e, pior, fazendo ver que sem dar um fim a tantos abusos será impossível restaurar o equilíbrio, devolvendo ao Estado a capacidade de cumprir com suas obrigações, devolvendo aos investidores a confiança que é inerente às suas iniciativas.

Tudo isso talvez nos faça compreender o sentido da advertência de um empresário de sucesso, hoje servindo na alta administração federal, ao afirmar que o Estado brasileiro ficou maior que o PIB do País.