27/12/2019 REUTERS/Adriano Machado

Quem transita pelos corredores mais bem situados de Brasília diz que o presidente Jair Bolsonaro não esconde, na intimidade, seus temores diante de possíveis e radicais reações dos caminhoneiros aos preços dos combustíveis. Eles são aliados de primeira hora do presidente e quando conseguiram paralisar o País certamente o ajudaram. Agora, se repetirem a façanha, farão o contrário e é esse temor que tem levado o presidente a tentar segurar os preços, sempre repetindo que não interfere nas políticas da Petrobras, e por isso mesmo chegando a prometer – algo impossível de ser sustentado – isenção dos impostos federais sobre combustíveis, desde que os governadores façam o mesmo.

Este pode até ser um dos problemas capazes de explicar por que, num país autossuficiente em petróleo, o preço do litro da gasolina já tenha ultrapassado a barreira dos cinco reais. É certo, porém, que toda a história não pode ser contada a partir desse viés, ou sem considerar que os preços hoje praticados internamente estão atrelados às cotações internacionais, algo tão absurdo quanto o fato, informado pela própria Petrobras, de que hoje suas refinarias operam com ociosidade de 23%. Entre os anos de 2014 e 2016 o País chegou a refinar 2,170 milhões de barris/dia, volume reduzido a 1,750 milhão/dia em 2019, ano em que a produção de óleo e gás chegou a 2,77 bilhões de barris/dia, volume que no quarto trimestre do ano ultrapassou a barreira dos 3 milhões de barris/dia, sendo dois terços extraídos na área do pré-sal.

Tudo isso significa dizer que a autossuficiência, há tão pouco tempo um sonho que parecia impossível de ser realizado, foi alcançada, porém sem produzir o resultado mais desejado porque o refino não é suficiente para atender a demanda, obrigando o País a importar combustíveis enquanto exporta óleo cru. Não há como deixar de concluir que algo muito errado, pelo menos na perspectiva de quem leva em conta os interesses nacionais e se lembra que a busca da autossuficiência em petróleo, feito notável e único considerada a extração em águas ultraprofundas. Tinha por objetivo maior livrar o País da sujeição à dependência externa e suas implicações.

Por mais absurdo que possa ter sido, tomamos a direção contrária, de que são sinais claros justamente o abandono dos investimentos em refino e, na sequência, a paridade com os preços internacionais, o que nada parece ter de simples coincidência. Nada a estranhar, portanto, com relação à escalada dos preços e, na mesma proporção, à ira dos caminhoneiros, justificável, e os extremos a que essa situação pode levar, num País em que aproximadamente 70% das cargas são movidas sobre caminhões que queimam óleo diesel. Sobram razões para que o presidente da República esteja preocupado.