Desatino que custou caro
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Eleito na esteira do sucesso do Plano Real, Fernando Henrique Cardoso, ministro da Fazenda do presidente Itamar Franco, ocupou a Presidência da República entre os anos de 1995 e 2003, depois de cumprir dois mandatos sucessivos. Suas duas gestões, acompanhadas de algumas controvérsias como a própria mudança da legislação para possibilitar sua reeleição, trouxeram as marcas do liberalismo na economia, privatizações até hoje controvertidas, como o valor atribuído à então Companhia Vale do Rio Doce, e uma política monetária restritiva, dando início à escalada dos juros, que chegaram a ser os mais elevados de todo o mundo, sob pretexto de que seria este o melhor remédio para conter a inflação. Seu sucessor, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, seguiu a receita, apesar das críticas constantes e contundentes de seu vice, o saudoso José Alencar Gomes da Silva.

O sobe e desce durante esse longo período atravessou o governo de Dilma Rousseff, com um curto e desastrado período de cortes, ganhou força novamente na transição comandada por Michel Temer e agora, na gestão de Jair Bolsonaro, toma o rumo contrário, com a taxa básica de juros (Selic) determinada pelo Comitê de Política Monetária (Copom) alcançando seu mais baixo patamar. Inflação sob controle e com tendência de baixa e lenta recuperação da economia justificariam a mudança de curso. Essa guinada, como seria de se esperar, produziu resultados positivos, beneficiando em primeiro lugar o maior de todos os devedores, o Tesouro Nacional.

Segundo dados recentemente divulgados, somente os cortes na taxa básica de juros promovidos ao longo do ano passado, gerou para o Tesouro uma economia de R$ 69,9 bilhões. Por coincidência, valor bem próximo do alcançado no leilão dos blocos de campos de petróleo, em novembro do ano passado. Mantida a tendência e considerando que a dívida pública chegou, no final do ano passado, ao equivalente a 75,8% do Produto Interno Bruto brasileiro, a administração federal estima que ao longo do presente exercício a economia poderá chegar a R$ 120 bilhões.

São números que impressionam e fazem pensar, além de lembrar aqueles que dizem que políticas monetárias restritivas podem ser um bom remédio, se utilizadas por pouco tempo. De outra maneira se transformam em veneno, comprometendo investimentos, negócios e crescimento de economias submetidas a esse regime. Considerados os valores agora apresentados é de se imaginar quanto terá custado ao Brasil, ao longo de mais de 20 anos, a política de juros praticada, sempre sob o pretexto de ser este o único remédio capaz de conter a inflação.

Quem tem responsabilidade – e autoridade – que faça as contas para chegar a conclusões que impeçam que tais desatinos nunca mais se repitam.