Crédito: REUTERS/Brendan McDermid

A semana começou com sinais de que os agentes econômicos estão em pânico, declaradamente por conta dos efeitos, ainda imprevisíveis, do coronavírus. E agravados pela batalha entre Rússia e Arábia Saudita em torno da produção e preços do petróleo, o que bastou para reduzir as cotações a níveis próximos à crise desencadeada com a invasão do Kuwait.

Ingredientes suficientes, na leitura de alguns analistas, para aproximar o planeta de um quadro de recessão, enquanto câmbio e bolsas apresentam oscilações dramáticas. Ontem, por exemplo, a Bolsa de São Paulo teve que paralisar suas operações (circuit breaker) por volta das 10 horas da manhã quando o nível de depreciação das ações ultrapassou a marca dos 10%.

São sinais de alarme, não resta a menor dúvida, mas neles é possível perceber também algumas contradições relevantes. Quanto à gripe, bastante curioso notar que a reação dos médicos e, mais amplamente, da área de saúde, é de demonstrar que a situação exige cuidados, mas os riscos efetivos não devem causar alarme, sendo suficiente lembrar, em reforço dessa ideia, que o cuidado mais recomendado é a higiene com as mãos.

Como então entender que a contaminação atinja mais pesadamente a economia?

Seria um exercício curioso lembrar que estudos e dados colhidos indicam que a gripe, de baixa letalidade, representa mais riscos para idosos e crianças, mais frágeis e vulneráveis. Poderia ser o mesmo com relação à economia, que, passados onze anos desde a crise financeira de 2008/2009, não se recuperou como se imaginava, fundamentalmente porque as propostas de reformas estruturais, trocando a ênfase na especulação financeira por mais atenção na produção e no comércio, ficaram de lado.

Voltando ao coronavírus, tão falado, nos parece plausível a analogia com a vulnerabilidade dos mais débeis.

E tudo isso sem precisar lembrar a questão do petróleo e sem que resistamos à tentação de indagar se o alinhamento brasileiro aos preços do mercado internacional valerá igualmente para um período de baixas, como ocorre presentemente.

Certo é que parece estarmos todos a bordo de um barco cuja bússola caiu no mar e está sem rumo. Observar, e não evidentemente as estrelas, poderá ser um exercício útil, de aprendizado, começando exatamente do petróleo.

Afinal, alcançamos a autossuficiência exatamente para reduzir nossos riscos na hipótese de uma contenda como a atual, entre russos e sauditas, tendo como pano de fundo questões que em nada nos dizem respeito. Receita perfeita para transformar sucesso em fracasso.