Para o bem, para o mal
Créditos: Luis Macedo/Agência Câmara

Com a reabertura, esta semana, dos trabalhos na Câmara dos Deputados e no Senado, foram retomadas também as atividades da comissão mista, informalmente batizada como comissão das fake news. Apesar da importância da matéria em discussão, conforme já foi percebido mundo afora, em Brasília até agora, os trabalhos se limitaram à troca de acusações entre situação e oposição, num debate sempre inconclusivo, desviado daquilo que de fato interessa e que, sem qualquer exagero, tem a ver com os fundamentos do sistema político que se pretende democrático. Mas, e como em tantos outros momentos decisivos, falta saber se existe, de fato, vontade e empenho para que seja possível chegar à verdade e, sobretudo, criar mecanismos capazes de impedir que a mentira seja transformada numa arma política de uso banalizado.

A extensão do problema, que não é apenas brasileiro, é bem conhecida, assim como seus efeitos, comprovadamente capazes de manipular a realidade e, dessa forma, a vontade coletiva e sua expressão, com deformações cujas proporções já não precisam ser apontadas. E algo que parece acontecer, e acontece, de forma generalizada, sem que se possa distinguir coloração política, muito menos os valores que seriam seu pilar. No entanto, a mesma tecnologia que criou condições e abriu espaço para tais deformações oferece ferramentas que permitem, com facilidade, identificar origem e autoria, o que permite saber, por exemplo, quem contratou e pagou mecanismos – chamados robôs – que espalham mentiras, como apoio a determinadas causas, grupos ou pessoas. Ferramentas, tudo faz crer, hoje é uso generalizado e, adiante, pagas com recursos de fundos partidários custeados com recursos públicos.

São condições que não têm como conviver com liberdade, democracia e livre expressão de opinião. Estamos falando de manipulação numa escala que há pouco tempo não teria como sequer ser imaginada. Estamos, portanto, falando também da importância da comissão cujos trabalhos servem de tema a este comentário. Valores fundamentais à sociedade organizada e que não são restritos ao campo da política que estão em jogo. A tecnologia que poderia promover valores assim reconhecidos parece caminhar na direção oposta, mas absolutamente não está fora de controle.

As mesmas ferramentas, desde que usadas corretamente, podem aproximar, podem congregar e podem ajudar a transformar, para melhor, a sociedade em que vivemos. É o que se espera, é o que muito depende da maneira como se conduzirão deputados e senadores, integrantes da comissão mista sob a qual pesa tremenda responsabilidade.